Apoio do governador na eleição municipal: vale a pena?

Apoio do governador na eleição municipal: vale a pena?

Antes mesmo da finalização da apuração dos votos em São Paulo, o candidato a reeleição, Bruno Covas (PSDB), já fazia seu primeiro pronunciamento e dava início a sua campanha para o segundo turno, que já estava definido. A presença de João Doria ao lado de Bruno Covas, nessa ocasião, foi simbólica para o partido tucano.

A relação entre o atual prefeito paulistano e o governador teve aproximação em 2016, quando Covas foi vice de Doria na chapa vencedora à época. Quatro anos depois, Doria apadrinha a campanha de seu partidário para reeleição da sigla tucana na capital.

O caso, que traz envolvimento direto entre prefeito e governador, nos permite questionar a importância do governador para o sucesso de um prefeito em seu estado. Segundo a pesquisa “A Cara da Democracia – Eleições 2020”, realizada pelo INCT/IDDC e pelo Cesop/Unicamp, ter o apoio do governador do estado parece ser importante para a decisão do voto.

Apenas 10% dos respondentes manifestaram que ter o apoio do governador não influencia o seu voto. E, se somarmos aqueles que poderiam votar ou que com certeza votariam num candidato apoiado pelo governador, chegamos a 50% das respostas.

Isso não significa que o partido do governador será vitorioso ou terá maior chance de sucesso, até porque 37% manifestam rejeição total a esse apoio. Mas o que os dados deixam claro é que o vínculo entre os dois cargos existe e é algo que precisamos considerar.

Entre as pessoas que não votariam de jeito nenhum em um candidato apoiado pelo governador, chama atenção que 54% não se identificam com nenhum partido político. Apesar da identificação partidária ser baixa no Brasil, essa não identificação associada a não vinculação do voto municipal com a indicação do governador acende uma luz de alerta para pensarmos possíveis estratégias partidárias nos pleitos posteriores. Afinal, em que medida é compensatório para uma candidatura municipal ter apoio da administração estadual e de seu partido?

O mesmo pode ser dito sobre a avaliação do governo para decisão do voto, um elemento bastante debatido na Ciência Política por sua capacidade de punir ou premiar os atuais gestores. Ainda de acordo com a pesquisa “A Cara da Democracia – Eleições 2020”, quase 59% das pessoas que avaliam negativamente o governo estadual na gestão da pandemia declararam que não votariam de jeito nenhum em candidatos que têm o apoio do governador.

O resultado acima, que mais demonstra indiferença e até mesmo completa rejeição pelo apoio do governador do estado, provavelmente influenciou os resultados em 2020. Apesar de ainda termos 57 cidades com segundo turno, já conseguimos traçar algum panorama para explorar esse possível impacto. Desse total, temos o partido do governador no segundo turno em 18 municípios, pouco mais de 30%.

Dos 26 estados brasileiros, 11 deles tiveram o partido do governador como o maior em número de prefeituras em seu estado. Em 2016, o jogo foi mais equilibrado: 50% dos estados tiveram o partido de sua unidade federativa como o vencedor em prefeituras conquistadas. Ou seja, entre a indiferença e a rejeição, os dados do survey não trazem surpresas sobre o comportamento nas urnas e com o início das campanhas para o segundo turno.

O que também não surpreende é a análise a partir dos partidos que mais vencem prefeituras por estado. Para além de ser o partido com maior número de prefeitos eleitos em todo território, o MDB é também o que mais venceu estadualmente. Em 2016, o MDB teve o maior número de prefeituras conquistadas em 13 estados, com o PSDB logo em seguida com quatro estados. Já em 2020, o partido mais antigo do sistema partidário brasileiro caiu para oito estados com maior número de vitórias ao Executivo municipal, seguido pelo DEM com quatro e o PSD com três.

A aproximação com o partido do governador é uma variável importante para compreendermos a política municipal. Após as eleições estaduais, a migração para partido do candidato recém-eleito para o cargo tende a ocorrer – a fim de obter trânsito interno no partido e, assim, estreitar relações com governador e angariar maiores recursos ao seu município. Se a tendência a partir daqui for a mesma apresentada pelos dados, com queda do partido do governador em campanhas municipais, os prefeitos terão que realizar outra migração antes de concorrerem novamente em seus municípios.

Ainda vale chamar atenção para o apoio do governador poder ser para o mesmo partido, mas não necessariamente. Claro que, se seu partido estiver competindo, provavelmente ele que terá apoio do executivo estadual. Mas, para além disso, é preciso pensar o que apoios a outros partidos podem significar. Por que um partido “A” na cadeira de governador do estado apoiaria um partido “B” a nível municipal? A resposta talvez esteja nas movimentações para os pleitos futuros. E, por isso, nos mantemos atentos aos resultados do segundo turno e seguimos acompanhando o andamento das gestões locais até 2022, pelo menos.

A pesquisa “A Cara da Democracia: Eleições 2020”, do INCT-Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação e do Cesop/Unicamp foi realizada entre os dias 24 de outubro e 04 de novembro de 2020. A pesquisa entrevistou duas mil pessoas por telefone, tem grau de confiança de 95% e margem de erro de 2,2%.

Sarto se distancia de candidato bolsonarista e é o favorito na disputa

Sarto se distancia de candidato bolsonarista e é o favorito na disputa

Pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha nos dias 18 e 19 de novembro aponta favoritismo de Sarto (PDT) no segundo turno em Fortaleza. O candidato pedetista obteve 50% da intenção de votos dos entrevistados, enquanto o candidato alinhado a Bolsonaro, Capitão Wagner (PROS), ficou com 36%. 10% dos entrevistados mencionaram a intenção de anular ou votar em branco, e 4% estão indecisos.

Excluindo as intenções de votos não válidos, Sarto teria 59% contra 41% do seu adversário.

Sarto é o candidato da situação e tem o apoio do atual prefeito Roberto Claúdio (PDT), Camilo Santana (PT) e da família dos Ferreira Gomes, que tem se mantido fora dos holofotes.

Ao longo do primeiro turno, Wagner tentou esconder o alinhamento com o presidente, despersonalizando o apoio de Bolsonaro ao se referir às boas relações com o governo federal como necessárias ao futuro gestor da capital cearense.

Como foi o primeiro turno?

A eleição na capital cearense tem sido bastante acirrada desde o início, marcada por uma disputa apertada entre os três primeiros colocados nas pesquisas de intenção de votos.

Os eleitores escolheram Sarto e Capitão Wagner para a disputa do segundo turno, tendo o primeiro recebido 35,72% dos votos e o segundo 33,32%. Luizianne Lins (PT), que nas primeiras sondagens eleitorais aparecia em segundo lugar, após campanha agressiva de adversários, viu seus índices de intenção de votos derreterem e finalizou o primeiro turno com 17,76% dos votos.

Na Câmara Municipal, o PDT foi o grande vitorioso nas eleições na capital cearense. Sozinho, o partido obteve 10 das 43 cadeiras em disputa, quase ¼ do total de vereadores.

O restante das cadeiras ficou dividido entre outros 16 partidos, dos quais sete compõem a coligação governista, totalizando mais 15 vereadores. No resultado geral, além da significativa fragmentação partidária (17 agremiações), já é possível vislumbrar blocos que protagonizarão os embates na Câmara.

O quadro que se montou no legislativo municipal espelhou a polarização e a disputa acirrada entre Sarto e Wagner. O PROS conseguiu cinco cadeiras além de, pelo menos, outras sete de vereadores eleitos por partidos aliados. Personagens que serão importantes cabos eleitorais para ambos os candidatos que se enfrentam no segundo turno.

Apoio, campanha e estratégias

Interessante notar que, antes mesmo de encerrado o período de campanhas no primeiro turno, Wagner já fazia acenos a Luizianne. Ao reconhecer as realizações na gestão da ex-prefeita, busca capturar parcela do eleitorado petista.

A despeito desses acenos, Wagner galvanizou o campo conservador em Fortaleza e, como um dos últimos atos de campanha no primeiro turno, fez lives com lideranças bolsonaristas de segmentos religiosos e não rejeitou o apoio oferecido pelo presidente Bolsonaro. Isso pode dificultar a aproximação com os eleitores de Luizianne na segunda etapa da disputa.

A estratégia de Sarto tem sido a de, mobilizando o embate contra o campo alinhado ao bolsonarismo no Ceará, atrair o eleitorado que rejeita o presidente mirando no voto útil.

47% dos entrevistados na pesquisa Ibope do dia 14 de novembro consideram o governo Bolsonaro ruim ou péssimo, 25% consideram regular e apenas 26% consideram o governo bom ou ótimo.

Camilo Santana: de corpo e alma na campanha de Sarto

A declaração explícita de apoio do governador Camilo Santana (PT) ao candidato pedetista veio na tarde da segunda-feira (16). Em pronunciamento oficial, Camilo reafirmou o compromisso com a democracia e convidou os demais partidos e candidaturas a somarem forças contra o que chamou de “candidato que usou a política da violência para buscar atingir os seus objetivos pessoais”.

O apoio de Camilo tem sido importante para Sarto, pois é visto como um dos principais cabos eleitorais na capital com potencial de transferência de voto e bons índices de aprovação.

Na última pesquisa Ibope, divulgada no dia 14 de novembro, a avaliação do governo estadual aparece como positiva (ótimo/bom) para 56% dos entrevistados. Para 30% o governo tem sido regular e apenas 12% avaliam negativamente (ruim ou péssimo).

O apoio do governador foi disputado tanto por Sarto quanto por Luizianne no primeiro turno. Sem as amarras legais (e morais) que impediam o apoio explícito à Sarto quando Luizianne ainda estava concorrendo, Camilo tem se sentido mais à vontade no segundo turno para participar ativamente dos eventos e programas do pedetista.

Sarto recebe apoio do PT

Quanto ao PT, o partido oficializou apoio à candidatura trabalhista na manhã de terça-feira (17). A Executiva Municipal, por unanimidade, decidiu pelo apoio a Sarto como alternativa ao bolsonarismo na capital. Em nota, o partido afirmou “a responsabilidade política de combater e derrotar o projeto fascista de Bolsonaro (…) representados pela candidatura de Wagner”.

Resta saber em que medida deverá ser o envolvimento do partido na campanha de Sarto, visto o desgaste entre as legendas depois das propagandas ofensivas contra a petista, além das rusgas entre Luizianne Lins e os irmãos Ferreira Gomes.

Apoios a Sarto para frear avanço bolsonarista

Outros candidatos que também disputaram a prefeitura de Fortaleza já se posicionaram. Foi o caso do deputado estadual Heitor Ferrer (SD). Ferrer, que se colocou como candidato independente e sem padrinhos políticos durante todo o primeiro turno, se declarou neutro e não pretende apoiar nenhum dos candidatos que avançaram para o segundo turno.

Com a quarta maior votação (63.199 votos ou 4,93% dos votos válidos), Ferrer parabenizou Sarto e Wagner e afirmou que seu “eleitor caracteriza-se por sua independência e seu discernimento. Ele segue sua consciência e seu juízo de valores. Ele é senhor do seu voto e sabe o que é melhor para a sua cidade. Em respeito a esse eleitor, não iremos aderir a nenhuma candidatura no segundo turno”.

Conforme as expectativas, partidos do campo progressista, como PSOL e PCdoB, declararam-se contrários ao candidato apoiado pelo presidente Bolsonaro. Em nota, o PCdoB afirmou apoiar as candidaturas de Sarto em Fortaleza e de Naumi Amorim (PSD) em Caucaia. Segundo a legenda, é importante marcar posição “para derrotarmos Bolsonaro e seus candidatos nas duas maiores cidades do Ceará. Todo apoio a Sarto em Fortaleza e Naumi em Caucaia”. O candidato do PCdoB, professor Anízio Melo, teve menos de 1% dos votos válidos.

Ao longo das gestões pedetistas na capital cearense, o PSOL sempre esteve no campo da oposição. No entanto, para o segundo turno das eleições, Renato Roseno (PSOL) declarou interesse em “derrotar o bolsonarismo”. O partido confirmou apoio a Sarto, mas sem fechar aliança programática com PDT. Roseno foi o sexto mais votado, com 34.346 votos (2,68% dos votos válidos).

Partidos como PV, PATRIOTA e UP, que disputaram as eleições majoritárias em Fortaleza, engrossaram as fileiras de uma frente partidária antibolsonarista que pode dar musculatura a Sarto.

Esperava-se que o PSL, de Heitor Freire, pela convergência de programas e pautas ideológicas, fechasse apoio a Wagner. No entanto, a sigla preferiu a neutralidade por entender que não se identificava com nenhuma das candidaturas que avançaram ao segundo turno. Freire teve 4,93% dos votos válidos no primeiro turno (65.199 votos).

Abstenção eleitoral e desafios na reta final da campanha

Na reta final da campanha, os candidatos não podem desconsiderar um possível aumento na abstenção eleitoral, seja devido ao contexto pandêmico, seja pela ausência de votação para vereadores, já finalizada no primeiro turno.

O primeiro turno já apresentou aumento em relação à eleições anteriores. Em 2012, a porcentagem de eleitores que não compareceu para votar foi de 16,02%, subindo para 17,04% em 2016 e chegando a 21,84% nesse pleito – o que corresponde a um total de 397.774 eleitores.

Wagner tem o desafio de atrair eleitores dos adversários. O candidato intensificou a agenda de campanhas e mira no eleitorado daqueles que declararam neutralidade. A seu favor, tem uma militância forte e engajada que pode fazer muita diferença nesses últimos dias que antecedem o segundo turno.

Para Sarto, a situação tem sido mais tranquila, entretanto a eleição só se encerra nas urnas. E o eleitor fortalezense gosta de surpreender.

*Monalisa Torres é doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará. É professora da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e pesquisadora vinculada ao Laboratório de Estudos sobre Políticas, Eleições e Mídia (Lepem/UFC).
Luciana Santana é mestre e doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais, com estância sanduíche na Universidade de Salamanca. É professora adjunta na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), líder do grupo de pesquisa: Instituições, Comportamento político e Democracia, e atualmente ocupa a vice-diretoria da regional Nordeste da ABCP.

Esse texto foi elaborado no âmbito do projeto Observatório das Eleições de 2020, que conta com a participação de grupos de pesquisa de várias universidades brasileiras e busca contribuir com o debate público por meio de análises e divulgação de dados. Para mais informações, ver: www.observatoriodaseleicoes.com.br.

Quais são os segredos de Kalil

Quais são os segredos de Kalil

Alexandre Kalil (PSD) está entre os grandes vencedores desta eleição. Político com estilo próprio, não foi gerado e nem nutrido em nenhum dos grandes partidos. Tem se destacado desde a sua eleição para prefeito de Belo Horizonte, em 2016. 

Duas características o diferenciam de quase todos os candidatos da atual onda de antipolítica: de um lado, Kalil preocupa-se com políticas públicas e resgata a tradição de atuação eficiente nesse campo criada pelo Partido dos Trabalhadores (PT) na cidade desde 2003. De outro, adere a movimentos contra o establishment político e aproxima-se dos candidatos neopentecostais na Câmara dos Vereadores. Até a eleição deste domingo (15), Belo Horizonte tinha 13 pastores evangélicos vereadores. Kalil foi responsável pela eleição deles, mas não hesitou nenhum minuto em enfrentá-los quando foi necessário. 

Alexandre Kalil parece ser dos poucos políticos que consegue ter um pé em cada um dos mundos da polarização política que existe no Brasil hoje. E isso lhe dá apoio popular.

Examinemos um pouco mais as políticas públicas da era Kalil. O prefeito reeleito em Belo Horizonte assumiu a Prefeitura no auge da crise econômica. Seu antecessor penalizou fortemente as políticas sociais para a população mais pobre nos dois primeiros anos da crise. 

No início da sua administração, Kalil aproximou-se de políticos petistas com forte tradição na área de políticas sociais e com isso reconstruiu políticas sociais importantes na cidade. Aumentou o número de equipes que lidam com a população de rua e conseguiu melhorar uma situação de crise, ao reabrir o restaurante popular fechado por Márcio Lacerda (sem partido). 

Kalil também seguiu a tradição existente em BH ao propor o novo Plano Diretor Municipal que diminui fortemente a possibilidade de construção na parte central da cidade reduzindo o coeficiente de aproveitamento das áreas urbanas para 1,0. 

O plano, que foi gerado na IV Conferência Municipal de Política Urbana, recebeu a oposição de toda a área de especulação imobiliária da cidade, mas o prefeito seguiu em frente reforçando uma concepção construída em parceria com entidades da sociedade civil. 

Quando olhamos Belo Horizonte pelo lado das políticas públicas, percebemos o porquê do sucesso de Kalil. Ele deu continuidade a um conjunto de iniciativas herdeiras da gestão do ex-prefeito Patrus Ananias (PT). Graças a isso não representou uma polarização com o eleitorado de esquerda na cidade.

Ao mesmo tempo, Kalil adotou uma política de enfrentamento verbal com a esquerda, especialmente com o PT, e de cooptação pontual da sua base de apoio conservadora na Câmara dos Vereadores. 

No momento da votação do Plano Diretor Municipal na Câmara, quando o prefeito enfrentava a ira da poderosa Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) e do lobby das grandes empresas de engenharia da cidade, ele negociou pontualmente com a bancada evangélica a retirada de limitações para a construção e reforma em templos religiosos. Igrejas e templos foram excluídos do pagamento da outorga onerosa, a taxa que construções acima do coeficiente de 1,0 são obrigados a pagar. 

O maior conflito de Kalil com a bancada evangélica deu-se em torno do projeto da “Escola Sem Partido”. Aprovado na Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte em primeiro turno, até hoje não foi votado em segundo turno. Kalil conseguiu diminuir a velocidade da tramitação do projeto sem se opor abertamente a ele e o projeto acabou não sendo votado. Assim, uma proposta que entornaria o caldo na relação entre prefeito e bancadas conservadoras na Câmara foi posto em banho maria e provavelmente não terá apoio na próxima legislatura.

Kalil foi dos poucos políticos brasileiros que conseguiu equilibrar-se na polarização brasileira. Mas foi durante a pandemia que ele reforçou sua concepção de independente, tendo sido ali que fortaleceu a imagem de eficiente na implementação de políticas públicas. 

Belo Horizonte foi a primeira grande capital a fechar o comércio e conseguiu ter baixos índices de transmissão do coronavírus até o início de junho. Foi também uma das poucas capitais a reverter a abertura do comércio no mês de julho, quando Kalil foi fortemente atacado pela Associação Comercial. Sua resistência aos lobbies de direita lhe valeram o apoio de parte da esquerda. 

O segredo de Kalil é implementar agendas de esquerda e conseguir compor pontualmente com os interesses conservadores da cidade. A esquerda fica feliz porque sua agenda é implementada. E a direita fica feliz porque tem acesso ao prefeito e compõe pontualmente em causas de interesse próprio que é a grande agenda dos setores conservadores em nosso país.

O fantasma da mamadeira: por que o potencial eleitoral do WhatsApp em 2020 é diferente?

O fantasma da mamadeira: por que o potencial eleitoral do WhatsApp em 2020 é diferente?

Ao menor sinal de informações falsas em grupos de WhatsApp, surgem temores envolvendo uma segunda onda de mentiras virais, repetindo a eleição de 2018. O uso de mentiras nas disputas políticas em torno da pandemia aumenta esta expectativa, mas é justamente o contraste com a pandemia que pode nos ajudar a responder à pergunta “por que 2020 seria diferente?”. As semelhanças entre a propagação de um vírus e a circulação de informações falsas que viralizam nos ajudam a entender as várias faces do contágio em redes sociais, online e offline. Elas também nos ajudam a entender as diferenças entre a viralização em escala municipal e o sempre presente fantasma da eleição presidencial de 2018.

A trajetória do coronavírus é relativamente conhecida, chegando ao país de avião, atingindo elites e caminhando para periferias, nos ônibus ou mototáxis, juntamente com trabalhadores que tiveram contato com infectados. Plataformas e aplicativos podem ser entendidos como modais de transporte, combinados cotidianamente para que uma informação caminhe por diferentes nichos e chegue a grupos consideravelmente distantes, social e economicamente, daqueles dedicados à sua produção. Muitas vezes, no entanto, estas plataformas são tratadas como ambientes estanques e independentes, influenciados apenas por algoritmos ou robôs. Seguindo o comparativo, caso os ônibus se mostrem relevantes na propagação de um vírus, simplesmente retirá-los de circulação leva o sistema de transportes a se adaptar, mas sabemos que isso não resolve o problema em sua origem e pode levar pessoas a alternativas ainda menos seguras em suas atividades cotidianas.

Se, por um lado, é fácil compreender que dez amigos que circulam frequentemente em bares podem contaminar mais pessoas do que cem amigos que não saem de suas casas, por outro, quando falamos de aplicativos como WhatsApp, todos os grupos parecem considerados como igualmente nocivos, ignorando a pluralidade de perfis, comportamentos e conexões envolvidas. Uma informação falsa em um grupo do WhatsApp pode ser como uma pessoa infectada dentro de um ônibus: sem saber se estamos numa linha integrada à Central do Brasil ou num caminho curto na área rural, isso não nos diz absolutamente nada sobre a relevância que esta informação pode ter em um cenário maior ou suas chances de viralizar. Ignorar as redes envolvidas na viralização fortalece expectativas de que estratégias de 2018 se repitam com igual impacto nas eleições municipais, por considerar apenas a quantidade de grupos ou de mensagens como critério para possível contaminação, sem levar em conta as estruturas de grupos e plataformas interconectadas.

Do vídeo que circula no YouTube a suas versões adaptadas para o WhatsApp, chegando a pessoas que não teriam acesso à internet sem o zero rating (acordo que faz com que pessoas usem redes sem desconto na franquia de dados), há escalas, plataformas e atores que cumprem funções diferentes para que a viralização ocorra. A rede de produtores de conteúdo com milhões de seguidores no YouTube foi beneficiada pela maior parte dos links em grupos do WhatsApp nos levantamentos de 2018, em campanhas para aumento de engajamento e consequentemente vantagens na adaptação ao algoritmo de visibilidade da plataforma. Por sua vez, grupos do WhatsApp podem ser alimentados com militantes especializados através da distribuição de links em aplicativos como Telegram, mais amigáveis à automatização, criptografados e onde se pode reunir até 200 mil pessoas. Todos esses exemplos mostram que o funcionamento destas redes é interdependente.

Sem algoritmos de visibilidade ou ferramentas de microtargeting em seus grupos, o WhatsApp talvez seja o aplicativo em que esta discussão é mais urgente. A polêmica sobre retorno a escolas e cultos nas igrejas pode ser útil à compreensão da dinâmica e estrutura do aplicativo. Cada escola pode ter entre seus alunos integrantes de diferentes igrejas e, por sua vez, há pessoas de outras escolas em cada uma destas novas igrejas, marcando a composição de uma rede que cresce a cada novo nicho considerado (universidades, bairros, condomínios). Aí reside o perigo, uma vez que pessoas constituem pontes conectando os grupos em que participam e colocando alguns deles em posições centrais, facilitando a contaminação (a igreja que conjuga o maior número de pontes para de escolas seria central, por exemplo). Esta é uma das lógicas de viralização em redes de grupos de WhatsApp.

No caso das eleições, infectar um grupo numa posição central e com pessoas suscetíveis a encaminhar mensagens da campanha faz com que virais possam se espalhar rapidamente. Grupos de apoiadores segmentados são utilizados como pontes para grupos centrais, com maior alcance e possibilidade de distribuição, interferindo na probabilidade de informações viralizarem, particularmente nos casos em que disparos de mensagens são feitos mirando perfis específicos. Longe de exercer igual poder persuasivo em todos os grupos, informações tornam-se virais adequando-se a nichos específicos que, em cenários polarizados, podem replicá-la e influenciar eleições e plebiscitos. A falta de proteção aos dados pessoais abre flancos para inserção de nichos mais propensos a acreditar em informações falsas nestes grupos. Os mesmos traços de personalidade utilizados pela Cambridge Analytica no caso das eleições norte-americanas de 2016 já foram analisados para entender viralização de petições em grupos de discussão fechados, em que um mesmo conteúdo pode viralizar ou ter impacto totalmente irrelevante de acordo o perfil dos primeiros grupos em que é lançado. Este é o motivo pelo qual o uso de dados pessoais, e não propriamente o conteúdo das mensagens em si, estar no cerne de escândalos como o da CA.

Se um grupo de WhatsApp estiver cheio (256 pessoas) e cada integrante estiver disposto a encaminhar a mensagem para um outro grupo também cheio, alcançamos 65,5 mil pessoas na primeira rodada de encaminhamentos e 16,7 milhões na segunda. Diferentemente do Facebook, em que 16 milhões de pessoas podem perder acesso a uma publicação que compartilharam caso ela seja excluída, no WhatsApp, cada um destes 16 milhões possui uma cópia do conteúdo em seu próprio celular, e a qualquer momento pode colocá-lo de volta em circulação nas redes que bem entender. Outra diferença importante é a ausência de algoritmos de visibilidade que limitem a visualização do conteúdo a perfis específicos, fazendo com que, independente do quão negativa ou desinteressada tenha sido a sua reação a uma mensagem, você seja exposto novamente e replique conteúdos similares em seu celular para acessá-los.

As estratégias de 2018 foram marcadas pelo casamento entre replicação/armazenamento de informações falsas, crescente polarização eleitoral, redes propensas à viralização de conteúdo, encaminhamentos sistemáticos por parte de apoiadores em um aplicativo extremamente popular e opacidade frente às autoridades públicas. Confirmamos a relevância de grupos centrais com diferentes nichos (ambos identificados utilizando algoritmos de análise de redes) na viralização de informações falsas no WhatsApp na eleição presidencial.

No entanto, 2020 apresenta um cenário essencialmente diferente. Quando cada município tem candidatos próprios para suas prefeituras, a definição de inimigos em comum em leituras polarizadas, como candidatos a governador ou presidente, é mais difícil. Embora políticas das prefeituras estejam relacionadas à pandemia e tenham conexão com temas da discussão nacional, inserir os diversos candidatos a prefeito em narrativas contra a China, meio ambiente ou fraude nas urnas, temas que têm sido bastante recorrentes, requer um esforço maior do que retomar as narrativas antipetistas e atacar figuras como o ex-presidente Lula. Os custos da utilização de redes nacionais de apoiadores pode não ser razoável para atingir um público local e a disposição de integrantes para bombear em suas redes informações sobre a eleição de outro município tende a ser limitada.

Igrejas, por exemplo, podem ter grupos relacionados a eventos ou denominações nacionais, estaduais e municipais, interconectados e em constante interação, que possuem pontos de discussão em comum durante uma eleição presidencial. Um grupo nacional pode facilitar o trânsito de informações e sua rápida viralização em uma série de grupos locais, auxiliando o investimento em estratégias coordenadas. Mas o inverso, com milhares de municípios e seus próprios candidatos arcando com o esforço de lançar informações nacionalmente, não faria sentido.  Em síntese, colocar em funcionamento aquela engrenagem de disseminação se torna mais difícil.

Adaptações para incluir conjuntos de partidos no dualismo antipetista é uma estratégia que se encaixa neste cenário. Atualmente, imagens e memes em que conservadores são instados a observar os dois primeiros números dos candidatos e descartar todos os que estão na lista de partidos “comunistas” circulam em diversos grupos, garantindo um atalho fácil para influenciar escolha eleitoral, que pode ser distribuído em vários grupos locais de modo coerente.

 

Além da diferença na escala da eleição, políticas específicas ligadas a estrutura da rede (como combate à inserção de pessoas em grupos a revelia, dificultando a constituição de grupos de campanha em posições centrais na rede de grupos interconectados) podem encarecer e dificultar consideravelmente investimentos deste tipo em uma campanha municipal. Precisamos considerar ainda as restrições nas possibilidades de encaminhamento de mensagens virais no aplicativo, que não resolve o problema (como mostrado no exemplo em que cada membro do grupo encaminha a mensagem para um novo grupo), mas reduz a velocidade e alcance da viralização.

Como na pandemia, veículos úteis ao trânsito rápido em escala nacional podem ser inviáveis e incompatíveis com os fluxos necessários no âmbito local. Na eleição presidencial, grupos circulavam links para redes de youtubers com milhares ou milhões de seguidores: quantos candidatos, nos cerca de 5.570 municípios do país, podem instrumentalizar uma rede como essa? Há adaptações dessa tática, como a denúncia falsa contra Guilherme Boulos usada por Celso Russomano no debate no UOL/Folha, que foi para outras redes a partir de um youtuber, na última semana. Mas quantos candidatos podem associar esta rede de produção constante a centenas de grupos segmentados no WhatsApp, com apoiadores propensos a compartilhar sistematicamente conteúdo que recebem e servir como pontes para outros grupos? E, mais importante, em quantos municípios a eleição é polarizada o suficiente para que um nicho específico influenciado por estas estratégias possa ser decisivo no resultado final do pleito?

O segundo turno e a mudança da pauta dos militantes de extrema direita, ainda ocupados entre a vacina “chinesa” e a defesa de Trump na eleição estadunidense, podem reforçar polarizações e campanhas coordenadas em diversas capitais. Sem dúvida, há espaço para surpresas em uma eleição municipal na qual candidatos são escolhidos perto da data da votação, disputando atenção com a pandemia e adaptando os eventos de campanha, em que a política nacional reverbera o impasse envolvendo uma figura aclamada como líder da direita internacional e que se recusa a reconhecer sua derrota eleitoral. É nesta conjuntura que as possibilidades de apropriação de plataformas redes sociais online e aplicativos estão inseridas, e inovações serão testadas e adaptadas, em um cenário radicalmente diferente do que viu florescer estratégias de campanha nacional pelo WhatsApp em 2018, unindo grupos do país inteiro em torno de um inimigo comum.

*João Guilherme Bastos dos Santos é pesquisador posdoc do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD) no Laboratório de Dados (C2D2). Pesquisas sobre campanhas de desinformação em redes sociais online apresentadas no European Consortium for Political Research (ECPR), Association of Internet Researchers Symposium (AoIR), European Communication and Education Research Association (ECREA), entre outros. Palestrante convidado em eventos relacionados promovidos pela Frente Parlamentar Digital e pela Câmara dos Deputados (falas disponíveis online), além da primeira plenária do Comitê Gestor da Internet no Brasil em 2020. Doutor em Comunicação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, com período sanduiche sob orientação de Stephen Coleman na University of Leeds (UK). Membro do Comitê Científico da Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política.

Ufanismo até certo ponto: a Justiça Eleitoral no Brasil

Ufanismo até certo ponto: a Justiça Eleitoral no Brasil

Houve uma certa onda de ufanismo em relação à Justiça Eleitoral brasileira frente às incertezas da eleição presidencial nos Estados Unidos. Como lá não existe uma instituição nacional encarregada de regular o pleito, muitos lembraram de nossos juízes e promotores eleitorais e do seu papel de assegurar a observância das regras eleitorais. Alguns vibraram com o aparente contraste: no país do Norte, instabilidade e atrasos gerados pela baixa institucionalização; no país latino-americano, regularidade e agilidade assegurados por um modelo de governança eleitoral institucionalizado.

Contudo, é possível argumentar que, pelo menos nestas eleições, estamos testemunhando uma espécie de americanização do pleito. Graças aos variados instrumentos processuais, múltiplos pontos de acesso à justiça eleitoral e perfil dos legitimados à propositura das ações, diferentes interpretações de juízes e promotores sobre vários aspectos do processo eleitoral geram certa instabilidade também no Brasil.

O quadro foi agravado pela redução do tempo da campanha, que aprofunda o descompasso entre as dimensões política e jurídica das eleições. Em regra, não é possível vencer todas as instâncias de revisão judicial no período em que decorrem as eleições – muitas vezes, as decisões dos juízes de primeira instância geram efeitos irreversíveis. Na prática, embora a justiça eleitoral seja uma instituição com abrangência nacional, as decisões são tomadas por milhares de juízes, localmente.

Desde o registro das candidaturas, passando por cada ato da campanha eleitoral e o julgamento das contas, quase tudo pode ser objeto de disputa judicial. Nem mesmo o dia da votação escapa. Ao que tudo indica, os eleitores de Macapá terão que esperar por mais tempo para escolher seus representantes enquanto os dos outros municípios do Amapá, que enfrentam os mesmos problemas de falta de energia da capital, vão às urnas no próximo domingo. Na justiça eleitoral, o que vale para uns, nem sempre vale para outros.

Já no marco zero da construção de uma candidatura a justiça eleitoral apresenta-se. Se os partidos políticos são o primeiro filtro na construção da representação eleitoral no Brasil, já que as candidaturas são obrigatoriamente lançadas via agremiações partidárias, o segundo é a justiça eleitoral.

São os juízes eleitorais que definem se as candidaturas vão vingar. Há uma gama de possibilidades, legalmente previstas, para que a justiça eleitoral barre uma candidatura, indeferindo o pedido de registro. A mais comum é a ausência de requisito de registro, mas se destacam, também, aqueles indeferimentos fundamentados na Lei da Ficha Limpa (LC 64/90), incluídos aí os casos de abuso de poder, e na Lei das Eleições (L9504/97), geralmente por conduta vedada e gasto ilícito de recursos.

Do total 557.392 pedidos de candidatura para as eleições do próximo domingo, 19.316 foram consideradas inaptas pela Justiça Eleitoral. Isso significa que 3,47% dos candidatos a prefeito, vice-prefeito e vereador não puderam concorrer, por decisão judicial. Nos casos de indeferimento de registro, 75,26% dos candidatos ficaram de fora do pleito por ausência de requisito legal. O restante dos indeferimentos de candidaturas deu-se principalmente com base na lei da Ficha Limpa (12,71%), aí incluídos os casos de abuso de poder. Vale a pena registrar que a atuação da justiça eleitoral no julgamento dos registros de candidatura não é uniforme e guarda apenas relativa associação com o volume de candidaturas apresentadas em cada região do país.

A tutela e escrutínio judicial das virtudes do voto ameaça até as manifestações mais criativas de construção da representação política. Já registramos aqui a intervenção desestabilizadora da justiça eleitoral em face das candidaturas coletivas/compartilhadas, que saltaram de 13, em 2016, para 257, em 2020, segundo os dados da CEPESP/FGV.

Até que o Tribunal Superior Eleitoral se manifeste de forma definitiva sobre o tema, os eleitores seguem, às cegas, em direção às urnas no próximo domingo. Em Fortaleza, uma candidatura desse tipo está em situação precária, ao mesmo tempo que em outras cidades as candidaturas coletivas/compartilhadas não são ameaçadas.

Outro exemplo do paradoxo da justiça eleitoral, criada para gerar estabilidade, mas que, às vezes, gera o oposto, é encontrado em Porto Alegre. Na corrida à Prefeitura, José Fortunati (PDT), que vinha aparecendo bem posicionado nas pesquisas, renunciou a sua candidatura depois que seu vice foi barrado pela justiça eleitoral. O impacto sobre a corrida eleitoral de um candidato empatado em segundo lugar em uma eleição que deve ir para o segundo turno a menos de uma semana das eleições não é um elemento para a coluna de pontos positivos para nosso sistema.

No Rio de Janeiro – e desta vez vinculada à uma candidatura à vereança – outro político tradicional, Lindbergh Farias (PT), redireciona parte de seus esforços de campanha para convencer os eleitores de que seu voto não será em vão frente a incertezas geradas por uma decisão da Justiça eleitoral e pela demora das outras instâncias.

Da tutela e escrutínio das virtudes do voto, a justiça eleitoral avançou também para a da doação dos cidadãos. Uma batalha judicial foi travada em torno de uma live que Caetano Veloso anunciava como evento de arrecadação para as campanhas de Manuela D’Ávila (PCdoB) e Guilherme Boulos (Psol) às prefeituras de Porto Alegre e São Paulo, respectivamente. Neste caso, a candidatura do PCdoB mobilizou sua assessoria jurídica e conseguiu reverter a decisão da justiça eleitoral gaúcha, garantindo a realização do evento.

Teve também repercussão a proibição da divulgação de pesquisa eleitoral realizada pela Datafolha na cidade de São Paulo atendendo ao pedido do candidato apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro, Celso Russomanno (Republicanos). A batalha de liminares poderia resultar em um quadro sui generes em que o eleitor de São Paulo seria privado de avaliar as chances dos candidatos e, eventualmente, votar estrategicamente, enquanto que em tantas outras capitais e municípios os cidadãos estariam mais plenamente informados. Felizmente, a decisão foi revertida a tempo.

A agilidade na divulgação dos resultados eleitorais e a segurança das urnas e das eleições, sob responsabilidade da Justiça Eleitoral, é admirável e nos diferencia de outras experiências democráticas. Mas essas tarefas são apenas uma parte da responsabilidade de juízes e promotores eleitorais. Quando se observa o quadro todo, agravado por uma corrida eleitoral tão curta, é prudente trocar o ufanismo por cautela e espírito crítico.

Atual prefeito de Aracaju lidera e vai ao segundo turno contra Delegada

Pâmella Synthia Santos e Luciana Santana* 

A eleição do próximo prefeito ou prefeita da capital sergipana será decidida apenas em segundo turno. É o que apontam os dados da terceira rodada de pesquisas do Instituto Ibope divulgada na última quinta-feira (12). A disputa será entre o atual prefeito, Edvaldo Nogueira (PDT), e a Delegada Danielle (Cidadania).

O desempenho do pedetista nas pesquisas melhorou desde a primeira rodada realizada em outubro. O candidato à reeleição tinha 32% das intenções de voto e agora tem 36%.

Sua principal adversária, Delegada Danielle, sem trajetória na política e disputando sua primeira eleição, chegará ao segundo turno apresentando desempenho estável nas pesquisas eleitorais. No início de outubro tinha 21%, oscilou negativamente e perdeu 2 pontos na segunda rodada. Agora voltou a ter 21% das intenções de votos.

O deputado estadual e apoiador do presidente Jair Bolsonaro, Rodrigo Valadares (PTB), seguiu em ritmo de queda e, desde a primeira pesquisa, perdeu 8 pontos percentuais. Atingiu 10%, mesmo percentual do candidato petista, Márcio Macêdo.

Figura 1: Desempenho dos candidatos nas pesquisas Ibope

Fonte: Instituto Ibope

Ataques nas propagandas eleitorais

Os embates entre os candidatos ocorrem desde o início do Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE). Inclusive, vários pedidos de retirada de propaganda têm sido apresentados na Justiça Eleitoral, evidenciando que a disputa não segue em clima de tranquilidade.

Rodrigo Valadares é um dos mais punidos pelo juiz da 27ª Zona Eleitoral de Sergipe, José Pereira Neto. Primeiro, o deputado estadual acabou descumprindo a decisão de direito de resposta em suas redes sociais para Edvaldo, chegando a passar de R$ 200 mil de multa, e, segundo, teve o direito de veiculação de propaganda gratuita retirado por ter utilizado conteúdo vedado pelo Código Eleitoral.

Ao se apresentar como representante da direita conservadora, Rodrigo faz uma campanha negativa contra seus adversários. Além de criticar a atual gestão, refere-se ao prefeito como membro de uma “esquerda comunista”. Chama a candidata Danielle de “delegada raivosa” e tenta enquadrá-la como parte da “velha política”, por ter como vice o ex- deputado federal Valadares Filho (PSB).

Suas estratégias são, segundo o juiz, de degradação e difamação da imagem do candidato à reeleição, comportamento que o deputado já vinha adotando, desde o início do seu mandato, em relação a um dos principais apoiadores do prefeito, o governador sergipano, Belivaldo Chagas (PSD).

Danielle também sofreu com os ataques de Rodrigo. Tem associado a candidata ao “senador da censura da internet”, referindo-se a Alessandro Vieira. Para se defender, a Delegada tem reafirmado constantemente que ela é quem toma os rumos de sua campanha, como forma de demonstrar sua autonomia perante o senador.

Carreatas e redes sociais

Diferentemente de eleições anteriores, as emissoras de TV decidiram não promover debates. A decisão não foi bem recebida pelos candidatos, que fizeram várias críticas mas aproveitaram a oportunidade para desafiar os adversários para um debate público.

A candidata Danielle Garcia utilizou seu programa eleitoral e as redes sociais para desafiar o atual prefeito para um debate sobre a cidade. Rodrigo Valadares também desafiou Danielle e Edvaldo. Macêdo não ficou de fora e também usou suas redes sociais para provocar a Delegada. Edvaldo não respondeu aos desafios.

Com a ausência de debates na TV e de poucos eventos nas ruas da capital, devido à pandemia de Covid-19, a troca de farpas tornou-se uma constante nas redes sociais e programas eleitorais dos candidatos.

Para se aproximarem dos eleitores, os candidatos têm optado pelas carreatas nos diferentes bairros aracajuanos.

Com candidatura pura, petista não decola

Na capital do estado que já foi governado pelo PT, a candidatura do ex-deputado federal Márcio Macêdo não conseguiu deslanchar. Nem mesmo com o apoio da cúpula do PT, do senador Rogério Carvalho, do deputado federal João Daniel e da vice-governadora Eliane Aquino.

 Ainda na fase de negociações da candidatura, a estratégia adotada pelo partido em Aracaju foi criticada por outras lideranças partidárias que esperavam uma aliança com o prefeito.

Ao longo da campanha, Macedo chegou a confrontar o atual prefeito e o governador Belivaldo Chagas, ressaltando o desafio de enfrentar “duas máquinas públicas fortes”.

Seja como for, está claro que o PT não acertou o alvo ao entrar no embate contra Edvaldo. Não adotou estratégias que pudessem impulsionar a candidatura visando a disputa do segundo turno.

Força de Edvaldo na reta final

Apesar das constantes difamações que vem sofrendo ao longo da campanha pelos seus adversários, o prefeito Edvaldo conseguiu chegar às horas decisivas como o preferido da população aracajuana para continuar à frente do executivo. Resta esperar o impacto desse confronto nas eleições de 2022.

* Pâmella Synthia Santos é doutora e mestra em Sociologia e cientista social pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) com pesquisas desenvolvidas sobre Grupos Políticos, Famílias e Partidos.
Luciana Santana é mestre e doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais, com estância sanduíche na Universidade de Salamanca. É professora adjunta na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), pertence à Red Politólogias, é líder do grupo de pesquisa: Instituições, Comportamento político e Democracia, e atualmente ocupa a vice-diretoria da regional Nordeste da ABCP.

Esse texto foi elaborado no âmbito do projeto Observatório das Eleições de 2020, que conta com a participação de grupos de pesquisa de várias universidades brasileiras e busca contribuir com o debate público por meio de análises e divulgação de dados. Para mais informações, ver: www.observatoriodaseleicoes.com.br