Ananda Marques e Luciana Santana*

A primeira pesquisa realizada pelo Instituto Ibope/ TV Mirante no segundo turno, divulgada ontem (20), apresenta o candidato Eduardo Braide (Podemos) com 49% das intenções de votos contra 42% do seu adversário Duarte Júnior (Republicanos). 7% dos entrevistados informaram que votarão branco ou nulo e 2% estão indecisos.

Na simulação apenas com os votos válidos, se a eleição fosse hoje, 54% dos entrevistados elegeriam Braide. Duarte Jr teria 46%.

Na simulação realizada pelo Ibope, ainda no primeiro turno, em pesquisa divulgada no dia 13 de novembro, Braide venceria com 51% e Duarte Júnior faria 32%. Apesar de o segundo turno ser considerado uma nova eleição, e ser influenciada por outros fatores, é possível identificar crescimento no desempenho de Duarte Júnior ainda na primeira semana de campanha no segundo turno.

E o que tem influenciado esse crescimento? Uma das hipóteses é que a entrada de Flávio Dino (PCdoB) em sua campanha tenha contribuído para melhorar seu desempenho. Entretanto, ainda não é possível vislumbrar se esse crescimento pode possibilitar uma virada. A próxima semana será decisiva.

Quem são Braide e Duarte Júnior?

Braide, filho do ex-deputado estadual Antônio Carlos Braide, iniciou sua carreira política em cargos eletivos no ano de 2010 ao ser eleito deputado estadual pelo PMN. Em 2014, foi reeleito pelo mesmo partido. Disputou a eleição municipal de São Luís em 2016 com uma candidatura que surpreendeu, mas ao fim perdeu no segundo turno para Edivaldo Holanda Júnior. Foi eleito deputado federal em 2018 e, ainda no mandato, tenta mais uma vez tornar-se chefe do executivo na capital do Maranhão.

Duarte Jr foi presidente do Procon no primeiro mandato de Flávio Dino e eleito deputado estadual pelo PCdoB em 2018, sendo o mais bem votado de toda a história de São Luís e o terceiro mais bem votado no estado. No começo deste ano, em razão de disputas internas dentro do partido, migrou para o Republicanos, partido do vice-governador Carlos Brandão, para ser candidato à Prefeitura.

A sucessão da Prefeitura de São Luís chama a atenção porque, de alguma forma, o resultado refletirá não apenas o contexto de disputas internas que deságuam na sucessão ao governo estadual em 2022, como também a força de uma possível candidatura de Flávio Dino à Presidência da República ou sua liderança em uma frente ampla no espectro da centro-esquerda.

Diferentemente do comportamento que adotou no primeiro turno, o governador Flávio Dino entrou em campanha e, não apenas declarou apoio a um dos candidatos, no caso Duarte Júnior (Republicanos), mas também convocou todo o secretariado e bases de seu governo para turbinar a campanha do ex-presidente do Procon.

Ainda sobre o primeiro turno

As candidaturas do primeiro turno estavam organizadas em três grupos: um bloco de candidatos que atuaram na gestão do governador Flávio Dino (PCdoB) e, portanto, disputavam seu espólio, apesar da neutralidade anunciada por ele. Um segundo grupo, que se opunha ao governo estadual. E um último conjunto de candidatos que se colocava como “terceira via”. Esse cenário indica que a gramática política das eleições 2020 na capital giram em torno da figura de Dino, e não mais de Sarney.

A estratégia adotada pelo governador foi de se manter neutro, mesmo com uma candidatura de seu partido – Rubens Jr, deputado federal do PCdoB e ex-secretário de Cidades na gestão estadual, recebeu 10,58% dos votos.

Essa neutralidade deve-se ao fato de que a corrida pela Prefeitura de São Luís tornou-se uma prévia da disputa entre os grupos políticos que compõem a coalizão de Dino. De um lado, o vice-governador Carlos Brandão (Republicanos, anteriormente PSDB) apoiando Duarte Jr. E de outro, o senador Weverton Rocha (PDT) apoiando Neto Evangelista (DEM), ex-secretário de Desenvolvimento Social e deputado estadual.

A coligação de Dino em 2018, contra Roseana Sarney (MDB), tinha 16 partidos e atingiu seu ápice ao reelegê-lo. Nos últimos dois anos, a coalizão tem se fragmentado devido ao reposicionamento dos atores tendo em vista 2022. Quem será o sucessor de Flávio Dino? A prefeitura de São Luís pode projetar uma liderança alguns passos à frente nesta corrida.

Em 2016, Braide chegou ao segundo turno como novidade, apesar de ser um político de carreira. Sua imagem de renovação conquistou o eleitorado da capital e o manteve na liderança das intenções de voto. O então prefeito, Edvaldo Holanda (PDT) foi reeleito na esteira do apoio de Dino. A eleição de São Luís foi um termômetro para 2018. Ao que parece, 2020 aponta para o mesmo sentido.

Flávio Dino e Braide

A pesquisa IBOPE em São Luís, divulgada em 14 de novembro, apontava 44% de aprovação e 17% de reprovação da gestão do governador, contra 20% de aprovação e 57% de reprovação de Jair Bolsonaro.

Essa rejeição ao presidente engendrou narrativas de que tanto Braide, quanto Duarte, devido às ligações nacionais de seus partidos, seriam bolsonaristas. Porém, apenas um candidato declarou-se oficialmente bolsonarista em termos ideológicos: Silvio Antonio (PRTB), que teve 3,14% dos votos.

A preferência do eleitorado por Braide e a alta aprovação de Dino podem parecer incoerentes se analisarmos a partir do diapasão bolsonarismo x antibolsonarismo. Mas, se olharmos para o fato de que a população ludovicense não associa Braide a Bolsonaro e que as múltiplas candidaturas do campo governista diluíram a transferência de votos do governador, faz bastante sentido o cenário que se desenhou.

Bolsonarismo e os apoios no 2° turno

Os candidatos ligados à base governista dividiram-se. Enquanto Rubens Jr, após pedido de desculpas público de Duarte Jr, declarou voto no candidato republicano, Neto Evangelista anunciou, apesar dos ataques proferidos contra Braide nos debates do primeiro turno, voto no candidato do Podemos.

O apoio de Neto à Braide coloca em xeque os esforços de Dino para manter sua coalizão unida. A solução encontrada até o momento foi o PDT municipal apoiar Braide e o estadual manter-se neutro. Porém, não se sabe ao certo até que ponto será possível sustentar certas incoerências.

Dois apoios importantes foram o do PSL à Duarte Jr e o do candidato bolsonarista Silvio Antonio à Braide. O discurso governista é de que Braide é o candidato de Bolsonaro na eleição, e portanto, seria esta uma disputa semelhante à eleição de 2018. Mas o que se percebe até aqui é que se trata de um embate entre Flávio Dino e Eduardo Braide, como já havia acontecido em 2016 na disputa entre Edvaldo e Braide. Entretanto, desta vez, o candidato apoiado por Dino é mais controverso e com alianças mais ambíguas do que as que foram construídas quatro anos atrás.

Para além do que tem acontecido na campanha de segundo turno de muitas capitais brasileiras, o caso ludovicense demanda uma análise mais acurada sobre as forças políticas em disputa e as narrativas que estão sendo construídas na esteira deste suposto duelo entre bolsonarismo e antibolsonarismo.

São Luís é palco de embates complexos, sendo um caso interessante de como uma coalizão subnacional tem sentidos próprios mas é também referenciada pelos debates nacionais. E principalmente de como certas alianças locais podem não fazer sentido nacionalmente e vice-versa.

Quem sai fortalecido no Maranhão?

Quanto às demais prefeituras no estado, temos o seguinte cenário: o PCdoB foi de 46 para 22 prefeituras e foi derrotado em cidades importantes, como Imperatriz e Caxias; o PDT cresceu de 29 para 41; o PL, anteriormente PR, foi de sete para 39; e o Republicanos, antes PRB, foi de 14 para 24.

Portanto, apesar da coalizão que forma a base do governo de Flávio Dino ter avançado, seu partido perdeu espaço significativo.

Já os partidos da oposição tiveram um desempenho tímido: o PSDB, que compôs a base do governo anteriormente e se tornou oposição com a ruptura de Roberto Rocha, foi de 29 prefeituras em 2016 para apenas quatro em 2020. O MDB, partido da família Sarney, foi 22 para sete. Estes números indicam que a disputa pelo poder no Maranhão tem sido travada dentro do próprio governo de Dino e não mais entre o governo e a oposição.

* Ananda Marques é mestra em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí. É professora e pesquisadora dedicada a temas tais como políticas sociais na América Latina e coalizões no âmbito subnacional.
Luciana Santana é mestre e doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais, com estância sanduíche na Universidade de Salamanca. É professora adjunta na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), líder do grupo de pesquisa: Instituições, Comportamento político e Democracia, pertence à Red Politólogas e atualmente ocupa a vice-diretoria da regional Nordeste da ABCP.

Esse texto foi elaborado no âmbito do projeto Observatório das Eleições de 2020, que conta com a participação de grupos de pesquisa de várias universidades brasileiras e busca contribuir com o debate público por meio de análises e divulgação de dados. Para mais informações, ver: www.observatoriodaseleicoes.com.br