Rompimentos, campanha negativa e antipetismo no duelo familiar em Recife

Rompimentos, campanha negativa e antipetismo no duelo familiar em Recife

Priscila Lapa e Luciana Santana*

A disputa municipal em Recife, entre João Campos (PSB) e Marília Arraes (PT), é uma das eleições mais intensas e acirradas do país. Não apenas por ser uma competição entre primos pelo comando da capital ou entre candidaturas de esquerda, mas pelas campanhas marcadas por ataques, difamações e quebra de reputações.

E em meio a esse clima de embates, em que os dois candidatos se dizem vítimas de uma campanha acusatória, alicerçada em mentiras, foi realizado o último debate televisivo da eleição 2020, pela TV Globo.

Entre os momentos de tensão, houve troca de acusações sobre qual das gestões – PT ou PSB – deixou mais obras inacabadas e qual delas menos contribuiu para o desenvolvimento da cidade. Nesse aspecto, João Campos acusou o PT de não fazer autocrítica e Marília falou que o PSB recruta seu partido como aliado sempre que é da sua conveniência.

O processo do Ministério Público mais uma vez foi trazido por Campos, que buscou comparar a vida pública dos dois para mostrar que não há acusações contra ele. Já Marília adotou um tom mais combativo e mencionou as investigações da Polícia Federal a respeito de compras realizadas pela Prefeitura durante a pandemia. A questão religiosa também foi tratada em diversas ocasiões, inclusive quando o tema tratado foi diversidade.

Sem maiores revelações, o debate provavelmente contribuiu para reafirmar a posição de quem já havia tomada sua decisão.

Desempenho dos candidatos nas pesquisas

Na última pesquisa Datafolha divulgada quinta-feira (26/11), Marília Arraes (PT), candidata petista aparece com 43% das intenções de votos contra 40% de João Campos (PSB), candidato da situação.

Na primeira sondagem divulgada no dia 19/11, Marília tinha 41% e subiu 2 pontos. Campos teve o maior crescimento, 7 pontos. Antes aparecia com 34% das intenções de votos. É possível perceber mudanças também em relação à porcentagem de entrevistados que informaram que pretendem votar branco ou nulo. A porcentagem era de 21%, reduziu para 13%. A porcentagem de indecisos oscilou de 3 para 4%.

Desempenho candidatos nas pesquisas Datafolha

Cada instituto segue metodologia própria, mas ainda que não seja possível comparar pesquisas de intenções de votos, torna-se importante ressaltar que, na última semana, os números do Datafolha divergiram dos números da pesquisa Ibope. O que mais chamou a uma virada de Campos sobre Marília.

No levantamento publicado pelo Ibope no 19/11, João Campos (PSB) tinha 39% e subiu para 43% na pesquisa publicada no dia 25/11. Marília Arraes (PT) que liderava com 45%, caiu para 41%. A porcentagem de brancos e nulos permaneceu estável. E de indecisos cresceu apenas 1 ponto.

Desempenho candidatos nas pesquisas Ibope

Entusiasmo marca a campanha de Marília no segundo turno

A trajetória da candidata Marília Arraes (PT) no segundo turno começou embalada pelo entusiasmo. A sua votação no primeiro turno foi de 223.248 votos, o equivalente a 27,95%, deixando para trás Mendonça Filho (DEM) e a Delegada Patrícia (PODE). Em alguns momentos da apuração dos votos, Marília esteve à frente de João Campos (PSB), o que gerou entusiasmo em apoiadores e na militância, numa onda crescente de “virada”.

Ciente de que o antipetismo seria o mote da campanha do seu adversário, a candidata foi angariando apoio até de adversários locais do PT, que justificaram seu gesto como a aposta na mudança. O deputado federal Ricardo Teobaldo, presidente estadual do PODEMOS, passou por cima do primeiro turno e declarou que a legenda tem em Marília a representação da oposição ao PSB. Com esse mesmo mote, o prefeito reeleito de Jaboatão dos Guararapes, Anderson Ferreira (PL), se juntou ao time de apoio à petista. O ex-senador Armando Monteiro (sem partido), que apoiou Mendonça Filho no primeiro turno, veio a público declarar que somava forças à candidata do PT.

Trazendo emoções positivas como pano de fundo dos programas eleitorais no rádio e na TV, Marília permaneceu em postura crítica à gestão socialista, mas em debates passou a questionar a capacidade de liderança e de gestão do seu adversário. O seu desafio é captar os votos daqueles que optaram por outros candidatos no primeiro turno movidos pelo sentimento de mudança. No primeiro turno, nem sempre foi possível fazer a distinção entre sua candidatura e a do socialista, colocada por muitos – inclusive pelos seus adversários – como sendo iguais, aliadas, de esquerda.

Ainda que o antipetismo tenha aparecido no primeiro turno, ele não foi amplamente explorado como se imaginava na largada do processo, pois a candidatura do PSB era o grande alvo. Marília não teve sua candidatura desconstruída e isso pode ser um dos motivos pelos quais ela chegou ao segundo turno.

João Campos aposta no antipetismo e na desconfiança do eleitor

João Campos (PSB) tem protagonizado uma campanha cuja estratégia busca despertar no eleitorado o antipetismo e o sentimento de desconfiança sobre Marília Arraes. A ele não restou alternativa, já que, para vencer a eleição, precisa dos votos depositados nos seus adversários no primeiro turno. Necessita se diferenciar de Marília, neutralizando a percepção de que são dois candidatos jovens, de esquerda. Se não bastassem os vínculos familiares, seus partidos protagonizam episódios de alianças e rompimentos no cenário local.

Assim, o tom mais emotivo, propositivo, de posicioná-lo como jovem, porém determinado, e tecnicamente preparado, foi sendo substituído pelo mote “Marília é PT”; pelo resgate de críticas às administrações petistas na cidade; pela comparação dos seus mandatos de deputado federal, apresentando a petista como alguém que tem um desempenho aquém do seu; e pela exploração de denúncias e possíveis indiciamentos de Marília pelo Ministério Público.

As primeiras propagandas de João Campos (PSB) no primeiro turno apontaram que Marília viabilizou sua candidatura por manter relações amistosas com membros da executiva nacional do PT, insinuando que essas lideranças petistas dominariam a prefeitura do Recife, caso Marília vença a eleição.

O que os diferencia as duas candidaturas de esquerda?

Não é pelas propostas que o eleitor tem conseguido diferenciar João Campos e Marília Arraes. Para cada proposta, uma acusação, um ataque ou uma tentativa de defesa. Na trajetória do segundo turno, apenas alguns aspectos específicos das propostas entraram na agenda eleitoral. Um exemplo disso foi o projeto apresentado por Marília Arraes, intitulado “Palafita Zero”, que pretende retirar famílias de palafitas com a construção de unidades habitacionais. João Campos acusou a candidata de desconhecer o custo para zerar as palafitas e que, portanto, ela estaria prometendo algo inexequível. A candidata rebateu mostrando as deficiências na área habitacional na atual gestão. E, assim, do debate acerca de uma proposta, imediatamente se chegou a um novo embate com elementos de desqualificação do adversário.

A famosa polarização direita versus esquerda se diluiu pelo debate mudança versus continuidade, mas agora de forma mais acentuada com referências de que mudar significa votar no PT. João Campos tem afirmado em entrevistas e debates que não terá secretários e nenhum membro do Partido dos Trabalhadores em seu staff. Nesse cenário, a diferenciação seria: “eu não sou do PT”, com tudo o que isso possa significar para o eleitor.

Outra diferenciação tem sido buscada pelas alianças firmadas e pelos perfis dos apoiadores. Marília Arraes buscou resgatar as realizações das gestões petistas na cidade, sem fazer menção aos ex-prefeitos petistas. Agora em 2020 o ex-prefeito e deputado João Paulo, hoje no PCdoB, disputou a eleição no município vizinho, Olinda, sem sucesso. No segundo turno, ele declarou apoio à Marília Arraes, ainda que seu partido, antes aliado recorrente do PT, hoje seja um braço direito do PSB, ocupando, inclusive, a vice-governadoria.

O ex-prefeito petista João da Costa, que disputou a eleição de vereador no Recife, e também não ganhou, fez diversas críticas a Marília Arraes no início da campanha, ressaltando o seu descolamento em relação às bases do partido. Agora no segundo turno, declarou seu apoio público à candidata. Era o que a campanha de João Campos queria: mostrar que as administrações petistas não foram suficientemente competentes, uma vez que Costa saiu da prefeitura com baixíssima avaliação, em 2012, sem sequer conseguir ser candidato à reeleição.

Nos debates, Campos passou a mencionar enfaticamente que Marília é a candidata de João da Costa, mais uma vez na tentativa de aflorar o sentimento anti-PT e gerar desconfiança sobre um possível mandato de Marília e seus aliados.

Contudo, a aliança entre PT e PSB é uma das maiores marcas da política local. Seria normal o fato de terem sido parceiros e hoje serem adversários. Mas a forma como se deu o processo deixou marcas que estão sendo exploradas pelos competidores na conjuntura atual.

Os dois partidos foram aliados nas três gestões petistas na capital pernambucana: 2000-2004; 2005-2008; 2019-2012. Em 2012, o PSB lançou candidato próprio, Geraldo Júlio, que venceu no primeiro turno, apesar de ser um quadro técnico do Tribunal de Contas do Estado, sem qualquer experiência política. Foi uma estratégia exitosa do ex-governador Eduardo Campos, que enxergou uma grande oportunidade de ganhar a prefeitura do Recife esquivando-se da briga interna do PT para definir quem seria o seu postulante. Isso porque, diante da má avaliação da gestão de João da Costa, uma ala do partido passou a defender que ele não fosse candidato à reeleição e que outro nome deveria substituí-lo. A briga, envolvendo a executiva nacional, gerou desgastes públicos para a legenda, que lançou Humberto Costa (atualmente senador pelo partido) e amargou o terceiro lugar. A partir dali, o PSB se tornou o grande protagonista da aliança política de esquerda no Recife.

Em 2016, a rivalidade entre os dois partidos foi reforçada. Geraldo Júlio foi para o segundo turno com João Paulo, à época no PT, e venceu com 61,30% dos votos. No cenário nacional, o PT amargava o seu pior desempenho na história recente, influenciado sobretudo pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Dois anos antes, PT e PSB viveram a maior desavença da trajetória dos partidos no contexto estadual. Eduardo Campos lançou-se candidato a presidente, com uma aprovação da sua administração que ultrapassava os 60%. Com a tragédia ocorrida, o eduardismo se tornou uma vertente política forte, avassaladora, quase. O PSB optou por abraçar a candidatura de Marina Silva, colocando-se como oposição nacional ao Partido dos Trabalhadores. No segundo turno, rumou para apoiar Aécio Neves. Era um choque com o caminho mais à esquerda que sempre percorreu. No plano local, os socialistas garantiram a eleição de Paulo Câmara para governador, mais um técnico escolhido por Eduardo Campos, como estratégia para não dar protagonismo a nenhum partido aliado em específico e manter a hegemonia do PSB.

Esse rompimento com o PT em 2014 levou o PSB a liberar secretários estaduais para reassumirem seus cargos de deputado federal para votar a favor do impeachment de Dilma Rousseff, o que causou ainda mais distanciamento com seus antigos aliados petistas. Mas não contavam com a mudança de cenário que se deu no Brasil em 2018.

O grande nome do PT em Pernambuco era o senador Humberto Costa, que pleiteava sua reeleição. Ao mesmo tempo, o palanque do governador Paulo Câmara minguava pelo desgaste da gestão socialista. Marília Arraes entra nesse contexto, pois, em 2016, filiou-se ao Partido dos Trabalhadores, após imenso desgaste dentro do PSB, tornando-se uma das principais críticas dos socialistas. Em 2018, pleiteava lançar sua candidatura a governadora do Estado. Mas, pela intervenção de Humberto Costa, teve seu nome retirado da disputa. Assim, os dois partidos rumaram juntos e garantiram não só a reeleição do senador como do governador no primeiro turno. A aliança beneficiou os dois. E Marília permaneceu como um nome viável, uma espécie de “carta na manga” para o PT.

Até o início de 2020, especulava-se a possibilidade de manutenção da aliança, mais uma vez “sacrificando” as pretensões de Marília Arraes. Mas desta vez foi diferente. Seu principal padrinho político, o ex-presidente Lula, foi um defensor de primeira hora da sua candidatura, o que foi acatado pela Executiva Nacional do partido. Como a aliança entre os dois inviabilizada, foram geradas expectativas sobre como seria a condução dos discursos: se os adversários iriam partir para o ataque, mesmo tendo rompido a relação muito recentemente, somado ao fato de membros do PT ainda manterem cargos na gestão socialista.

No primeiro turno, os candidatos de centro-direita utilizaram essas idas e vindas dos dois partidos para dizer que se tratavam de uma coisa só. E para muitos eleitores isso fazia todo o sentido.

Marília Arraes ou Marília?

Marília tentou firmar-se como uma liderança com personalidade própria e protagonismo. No início da campanha, foi cobrada por não utilizar os símbolos e cores do partido. No entanto, além das alusões ao seu avô Miguel Arraes, a candidata trouxe a figura de Lula para os seus programas e viu o crescimento da sua intenção de votos acontecer. Passou a resgatar os feitos das administrações petistas, tanto em âmbito nacional quanto localmente. A mensagem era: “É Lula, é Arraes. É Marília Arraes”. E completava dizendo ter orgulho de carregar no peito “essas duas histórias de luta”, porém advertia: “Não esqueça, eu sou Marília”.

Muito se debateu sobre o que e quem contribuiu para que Marília se viabilizasse no segundo turno. O fato de ser mulher teria sido um grande diferencial? Lula foi um cabo eleitoral mais eficiente do que o presidente Bolsonaro, que, ao apagar das luzes do primeiro turno, declarou apoio à candidata Delegada Patrícia? O quanto do eleitor petista esteve presente?

Em sua campanha no segundo turno, Marília passou a ser mais enfática na mensagem direcionada ao público feminino. Passou a falar que “o Recife precisa de uma Prefeita”, fazendo alusão às características femininas do cuidado.

A imagem de Marília antes da eleição de 2020 era a de alguém que teve coragem de romper com o PSB, mesmo sendo da família Arraes e tendo sua história política de alguma forma atrelada ao partido do seu avô e do seu tio Eduardo Campos. Ao mesmo tempo, João Campos desponta como um jovem que passou pela perda precoce do pai e que escolheu a política como vocação. A sua imagem jovial contrasta com o discurso que tenta demonstrar firmeza. Os adversários, em diversas ocasiões, cobraram um do outro respeito ao legado de Miguel Arraes.

Como o voto evangélico pode influenciar a eleição?

Um fato novo do segundo turno foi a força de desconstrução da candidata petista, não apenas pela questão partidária, mas pelo viés religioso. Logo no início da corrida do segundo turno, ainda no embate dos apoios dados a cada um dos postulantes, inserções do PSB na TV e no rádio começaram a questionar a formação religiosa de Marília Arraes, colocando-a como alguém que, em determinadas ocasiões da sua trajetória como vereadora, havia adotado posturas anti-cristãs, como o posicionamento contrário à leitura da Bíblia no início das sessões plenárias. Em seguida, panfletos apócrifos passaram a ser distribuídos na saída de templos religiosos com esse mesmo teor, conforme apresentado em artigo do Observatório das Eleições.

A candidata recorreu às redes sociais para gravar mensagens em que reafirmava a sua postura cristã e para repudiar essa estratégia de “ataques pessoais” da campanha socialista. Também conseguiu atrair lideranças religiosas, inclusive do segmento evangélico (recebeu o apoio de 12 congregações), que se disseram contrários aos ataques desferidos contra a petista.

Mas, de acordo com as pesquisas, a maior parte dos eleitores evangélicos passou a apoiar o candidato João Campos. Na pesquisa Ibope divulgada em 19 de novembro, Campos se destaca na preferência dos eleitores evangélicos com 44% das intenções de voto, contra 32% da candidata petista.

A pesquisa do Datafolha publicada no dia 20 de novembro também apresenta diferença na preferência dos eleitores evangélicos. Dentre os entrevistados evangélicos, 33% mencionaram ter preferência por Marília e 38% por João Campos. Entre os católicos, 44% preferem Marília e 35% a Campos. A intensidade das campanhas marcada por embates e difamações podem ter influenciado a intenção de votos. Na segunda rodada da pesquisa Datafolha publicada no último dia 25, a porcentagem de evangélicos que preferem o candidato socialista cresceu passou para 51% contra 30% dos que mencionaram preferir a candidata Marília. Entre os entrevistados católicos, 46% preferem Marília e 39% João Campos.

Disputa judicial e fake news

A uma semana do pleito, a revista Veja publicou uma matéria apresentando denúncia feita pela 43ª Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania, em que acusa Marília Arraes de ter cometido improbidade administrativa, juntamente com quatro ex-assessores, quando foi vereadora do Recife. Datada de 10 dezembro de 2019, a denúncia desencadeou pedido à Polícia Civil para instaurar inquérito, a fim de apurar os fatos. De acordo com a revista, a denúncia diz respeito a supostas irregularidades no pagamento de servidores do gabinete, que receberiam salários e não prestariam serviços, nos anos de 2014 e 2017. O fato tem sido amplamente explorado pela campanha socialista, assim como a divulgação de áudio do deputado federal Túlio Gadelha (PDT), em que supostamente confirma a realização de atos de improbidade ligados à remuneração de servidores do gabinete de Marília Arraes.

O partido de Gadelha apoia João Campos, inclusive indicou Isabella de Roldão como vice, mas o deputado se colocou publicamente contra essa postura. No segundo turno, rompeu sua posição de neutralidade e declarou publicamente apoio a Marília Arraes.

A candidata divulgou notas e falou publicamente sobre tais acusações, dizendo-se se tratar de uma denúncia e de um processo já arquivados, por não serem procedentes. A partir daí, os dois candidatos passaram a travar brigas judiciais, no caso de Marília para retirar as propagandas sobre o assunto do ar; no caso de João Campos, para mantê-las.

Desafio do último dia: reduzir a abstenção eleitoral

O corpo a corpo para conquistar o eleitor ainda continuará até que a votação seja encerrada. E até lá, os candidatos têm a missão de convencer os eleitores de irem às urnas e reduzir a abstenção verificada no primeiro turno, além do elevado número de brancos e nulos apontados até o momento pelos Institutos de Pesquisa.

Seja como for, até a apuração do resultado, a disputa  familiar recifense promete muitas emoções.

*Priscila Lapa é doutora e mestre em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco, possui graduação em Comunicação Social (Jornalismo) e em Serviço Social. Professora na Faculdade de Ciências Humanas de Olinda (FACHO) e Analista Técnica no SEBRAE-PE, atuando na área de Políticas Públicas.
Luciana Santana é doutora e mestre em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais, com estância sanduíche na Universidade de Salamanca. É professora adjunta na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), é líder do grupo de pesquisa: Instituições, Comportamento político e Democracia, e atualmente ocupa a vice-diretoria da regional Nordeste da ABCP.

Após sete vitórias consecutivas em Teresina, PSDB pode perder a eleição

Após sete vitórias consecutivas em Teresina, PSDB pode perder a eleição

Fora dos holofotes nacionais, a disputa em Teresina merece atenção. O PSDB ganha eleições na capital piauiense desde 1992. Perdeu o controle da Prefeitura apenas entre meados de 2010 até 2012, quando o então prefeito peessedebista à época, Sílvio Mendes, renunciou para disputar as eleições estaduais em 2010. De 2010 a 2012 ocupou o cargo o então vice-prefeito da capital, Elmano Férrer (à época no PTB e hoje filiado ao PP).

Foram quatro prefeitos tucanos em Teresina: Wall Ferraz (1993-1995), Francisco Gerardo (1995-1996), Firmino Filho (1997-2004 e 2013-2020) e Sílvio Mendes (2005-2010). Wall Ferraz já havia sido prefeito da capital de 1986 a janeiro de 1989, à época pelo PMDB. Isso é importante de ser lembrado, pois a força política do PSDB em Teresina deu-se, em grande medida, pela vinda de Wall Ferraz para o partido. om a morte de Ferraz em 1995, Firmino Filho, economista, professor e jovem político do partido, lançou-se como candidato de continuidade do legado de Ferraz em 1996, sendo vitorioso naquele pleito. Firmino Filho, junto com seu partido, não somente deu continuidade ao legado de Ferraz como conseguiu imprimir sua própria marca na política teresinense. Foi eleito prefeito da capital piauiense por quatro vezes.

Nesta eleição, Firmino Filho não poderia mais se colocar como candidato. Precisava, junto com seu partido, fazer o sucessor. No entanto, quem poderia assumir esta condição? Vários nomes foram apresentados, inclusive do ex-prefeito Sílvio Mendes. No entanto, o escolhido foi Kleber Montezuma.

Quem são os atuais candidatos?

Montezuma é economista e professor e, apesar de não ter ocupado cargos eletivos, participou da gestão do PSDB na capital. Deixou o cargo de secretário de Educação para disputar a eleição a prefeito. Antes, já havia ocupado as pastas de Educação e Cultura (2001-2004), Habitação e Urbanismo (1997-2000) e Trabalho e Assistência Social (1993-1996) na Prefeitura.

Candidato de confiança do atual prefeito, Montezuma foi também “abençoado” pelo senador Ciro Nogueira (PP), que indicou o vice para a chapa, o policial militar Eduardo Rodrigues da Silva, conhecido como Sargento R. Silva (PP). A gestão do prefeito Firmino Filho é desaprovada por 53% dos entrevistados e aprovada por 41%, de acordo com a pesquisa do Ibope de 23 de novembro. Com essa baixa avaliação, é difícil viabilizar um candidato de situação, ainda mais alguém sem experiência em disputas eleitorais.

O candidato Dr. Pessoa (MDB) foi eleito vereador de Teresina pelo PPS em 2000, 2004 e 2008. Em 2012, já no PSD, voltou a se reeleger para a Câmara Municipal. Em 2014 foi eleito deputado estadual. No entanto,  derrotas também fazem parte da trajetória política de Pessoa. Em 1988, perdeu a disputa para a prefeitura de Lagoinha do Piauí e, em 1996, para a prefeitura de Água Branca. Em 1990 e em 2002, perdeu a eleição para o legislativo estadual. Em 2016, disputou a Prefeitura da capital e foi derrotado pelo atual prefeito. Filiado ao partido Solidariedade, em 2018, disputou o governo estadual contra Wellington Dias e também foi derrotado. Contraditoriamente hoje estão ao mesmo lado na disputa de Teresina.

É válido, no entanto, destacar que Dr. Pessoa teve 39,7% dos votos, no primeiro turno, no pleito de 2016 para a Prefeitura de Teresina e cerca de 20,5% na eleição para governador do Piauí em 2018. Não se trata de um candidato desconhecido da maior parte da população teresinense. Diferente de Kleber Montezuma, pouco conhecido e sem capital político próprio.

Desempenho nas pesquisas

A pesquisa Ibope/TV Rádio Clube de Teresina, divulgada no último dia 23 de novembro, aponta para uma vitória do candidato emedebista sobre o peessedebista. Na sondagem, 55% dos eleitores mencionam que votariam em Dr. Pessoa (MDB) e 30% em Kleber Montezuma (PSDB). 11% informaram que votarão em branco ou nulo e 4% estão indecisos. Na contabilização apenas dos votos válidos, que excluem votos em branco, nulos e indecisos, Pessoa teria 65% da intenção de votos contra 35% de Montezuma.

No primeiro turno, Dr. Pessoa obteve 34,53% dos votos válidos, enquanto Montezuma apresentou 26,70%. Gessy Fonseca (PSC), que teve 12,1% dos votos válidos, decidiu apoiar Dr. Pessoa e Fábio Novo (PT), que teve 11,5%, manteve-se neutro.

O clima da Campanha

Os ânimos poderiam estar mais acirrados na disputa pelo segundo turno, mas a vantagem nas pesquisas tornou a posição do candidato emedebista mais confortável, tanto que não tem participado de debates em rádio e televisão. Devido à recusa de Dr Pessoa  não houve debate ontem na TV Clube, afiliada da Rede Globo no Piauí.

Restou ao candidato pessedebista tentar se capitalizar politicamente em cima dessas ausências. A estratégia política de Kleber Montezuma, no entanto, teria que ser extremamente contundente. Conforme as pesquisas, não bastaria o candidato da situação convencer o eleitor indeciso, mas mudar a preferência inicial de alguns eleitores que já se colocam a favor de Dr. Pessoa.

Para o PSDB, está em jogo a continuidade do seu domínio na capital. Além disso, perder o controle do maior colégio eleitoral do estado poderá implicar em um grande obstáculo ao futuro político do PSDB, de Firmino Filho e de seu aliado político, Ciro Nogueira (PP), que foi um dos grandes vitoriosos das eleições municipais no estado, tendo seu partido obtido 83 prefeituras de um total de 224 municípios piauienses.

Bolsonarismo entrou na eleição de Teresina?

De acordo com os dados da pesquisa do Ibope publicados do dia 23, o governo de Jair Bolsonaro é avaliado de forma negativa (ruim/péssimo) por 48% dos entrevistados, regular por 28% e bem avaliado por apenas 23% (ótimo/bom). Isso reflete bem a estratégia dos candidatos.

Nenhum dos dois têm se vinculado diretamente a Bolsonaro, mas o presidente também não tem sido alvo de críticas. As questões locais têm preponderado e o que está jogo é o continuísmo ou alternância. Neste caso, Dr. Pessoa tem se apresentado como viável eleitoralmente para a mudança política na capital piauiense.

O apoio do PT e de Wellington Dias ao MDB

O candidato petista e deputado estadual Fábio Novo (PT) terminou o primeiro turno em quarto lugar na disputa da capital, alcançando 11,5% dos válidos. Novo declarou que votará nulo, pois, após conversa com Dr. Pessoa, não se chegou a um consenso quanto à aliança no segundo turno. Devido à rivalidade histórica entre PT e PSDB, o candidato também não apoiou Kleber Montezuma. No entanto, o  Partido dos Trabalhadores (PT) decidiu apoiar a candidatura do MDB. O candidato Dr. Pessoa também recebeu apoio do governador Wellington Dias.

O apoio petista não foi bem recebido por outros aliados e o tom das críticas aumentaram nos últimos dias, especialmente com referências a realinhamentos de forças visando as eleições em 2022. De acordo com a última pesquisa Ibope, a avaliação da gestão do governador piauiense é ótima ou boa para 27% dos entrevistados, regular para 36%, ruim ou péssima para 34% e 2% não souberam avaliar. Considerando a avaliação negativa do governador na capital, é possível que esta seja a razão da candidatura de Dr. Pessoa não ter explorado em sua campanha o apoio recebido do PT.

Já houve aliança entre PT e PSDB no Piauí

Historicamente, assim como a nível nacional, PT e PSDB não costumam se alinhar. Não somente isso. Costumam rivalizar disputas eleitorais. A última aliança entre o PSDB e o PT em disputas com grande relevância no estado ocorreu em 1998, quando lançaram uma candidatura conjunta para o governo estadual. No entanto, naquele pleito, já no segundo turno, os dois partidos tomaram posições divergentes.

Em 2002, Wellington Dias (PT) foi eleito pela primeira vez governador em uma disputa contra Hugo Napoleão (PFL) que contou com o apoio de Firmino Filho (PSDB). A partir daquele momento, o PT começou uma trajetória de fortalecimento do partido, o que não significou ganhos políticos na capital. Mesmo Wellington Dias, quando foi candidato a prefeito de Teresina em 2012, obteve apenas 14,2% dos votos válidos.

Com o PSDB dominante na capital, o PT nunca conseguiu lançar uma candidatura viável eleitoralmente em Teresina. Dr. Pessoa (MDB), no entanto, parece ter conseguido encontrar o caminho. Com isso, o PT tratou de apoiar sua candidatura no segundo turno. A questão que fica é: esse apoio terá vida longa até 2022?

O fim da gestão do PSDB na capital

Sabemos que políticas como o Projeto Vila-Bairro, desenvolvido na década de 1990, possibilitaram que o PSDB garantisse um apoio espraiado em todo o município. Além disso, bons indicadores relacionados à educação pública municipal permitiram a população acesso à educação. Também é válido dizer que a oposição tem dificuldades de apresentar um projeto para a cidade que convença o eleitorado teresinense a eleger candidatos de outro partido.

A eleição em Teresina pode influenciar 2022?

Em 2018, participaram da mesma coligação PT, PP e MDB. Entretanto, a aliança entre Wellington Dias (PT) e Ciro Nogueira (PP) não parece ter vida longa. Nogueira tem buscado construir alianças para viabilizar sua candidatura de governador em 2022. Com isso, o PP buscou lançar e investir mais fortemente em candidaturas para as prefeituras piauienses.

Na capital, assim como em outros municípios, fica claro que o atual governador, Dias e o senador Nogueira, de fato, se colocarão em lados opostos no pleito em 2022, seja na disputa do Governo do Estado, seja para os demais cargos.

*Vítor Sandes é doutor em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É professor adjunto da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Partidos Políticos (Geppol).
Luciana Santana é mestre e doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais, com estância sanduíche na Universidade de Salamanca. É professora adjunta na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), líder do grupo de pesquisa: Instituições, Comportamento político e Democracia, e atualmente ocupa a vice-diretoria da regional Nordeste da ABCP.

Capitão Wagner e o fundamentalismo religioso na disputa de Fortaleza

Capitão Wagner e o fundamentalismo religioso na disputa de Fortaleza

O segundo turno da disputa pela Prefeitura de Fortaleza tem assistido a uma forte mobilização do campo religioso conservador, sobretudo entre os evangélicos, de apoio à candidatura de Capitão Wagner (PROS).

Ele apresenta-se como “independente” e sem “chefe político” quando questionado acerca do apoio do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que acumula reprovação de 46% dos fortalezenses conforme pesquisa Ibope divulgada nesta segunda (23). Porém, os apoiadores de sua candidatura, parlamentares e lideranças “bolsonaristas” de primeira hora resolveram radicalizar na semântica religiosa e aproximá-lo ainda mais do espectro bolsonarista.

No primeiro turno, quando a primeira pesquisa de intenção de votos foi publicada, em 15 de outubro, já se sabia que o segmento dos evangélicos lhe traria considerável montante de votos. Wagner aparecia com 39% das intenções de votos dos evangélicos, contra 16% de Luizianne Lins (PT) e também 16% de José Sarto (PDT). Três dias depois era a vez do Datafolha apontar a vantagem do candidato neste agrupamento religioso: 42% dos evangélicos diziam ter no Capitão a sua escolha eleitoral.

Uma segunda pesquisa IBOPE, publicada em 04 de novembro, trazia novos dados coletados por segmentos, o que incluía os evangélicos, e nela a intenção de votos em Wagner era de 37%, ao passo que a de Sarto, também evangélico, era de 22%.

Num dos momentos iniciais da campanha, Wagner aparecia nas redes sociais com uma apoiadora dizendo que, caso fosse eleito, “devolveria Fortaleza aos cristãos”.

Desde o primeiro turno, o candidato contou com o apoio explícito dos deputados estaduais Dra Silvana (PL/Assembléia de Deus), David Durand (REPUBLICANOS/Universal), Apóstolo Luiz Henrique (PP/Igreja do Senhor Jesus) e André Fernandes (Republicanos/Assembleia de Deus); dos deputados federais Ronaldo Martins (REPUBLICANOS/Universal) e Dr Jaziel (PL/Assembléia de Deus); e da vereadora Priscila Costa (PSC/Assembleia de Deus). Martins, que disputou uma vaga para a Câmara Municipal, foi eleito o vereador mais votado da cidade, com quase 33 mil votos, e Costa foi reeleita com mais de oito mil votos, a quinta mais votada.

Com tais lideranças no seu entorno, várias sinalizações do candidato ao segmento foram realizadas, destacando-se a realização de duas lives na última semana do primeiro turno. A primeira, na quinta-feira (12), reuniu pastores para tratar da pauta “igreja como serviço essencial”. A segunda, no sábado (14) antes da eleição, reuniu os deputados anteriormente citados para proferir uma série de ataques indiretos à candidatura do PDT, sobretudo por supostos apoios ao aborto, “ideologia de gênero” e “autoritarismo contra pastores e padres”.

Uma série de mensagens de áudio, cujos autores dizem-se “pastores”, circulam nas redes sociais dando conta de perseguições às igrejas caso o candidato do PDT ganhe a eleição. A acusação sempre é ao PDT, nunca ao candidato diretamente, permitindo explorar melhor a ideia de uma “esquerda anti-cristã”. PDT, um partido que fecha igrejas, que prende padres e pastores, que é favorável ao aborto, que implanta a ideologia de gênero, que é contra a família: esse é o teor das mensagens.

A primeira pesquisa de intenção de voto neste segundo turno, realizada pelo Datafolha e publicada no último dia 21 de novembro confirmou a vantagem do candidato do PROS: tem 53% de intenções de votos entre evangélicos, contra 35% de Sarto.

Esses números podem ser resultado do trabalho efetivo feito dentro das igrejas para, por meio do pânico moral, garantir votos para o candidato. Na última semana, lideranças importantes gravaram vídeos de apoio a Wagner: Damares Alves, Silas Malafaia, Aline Barros, dentre outros. A aposta, ao que parece, é na fidelização desse eleitorado por meio da radicalização retórica: o “senhor está conosco”, o “mal” está com eles. Para tanto, mesmo nomes do catolicismo carismático, como Eros Biondini e Eliana Ribeiro (ambos ligados à Comunidade Canção Nova), gravaram depoimento de apoio a Wagner.

A pergunta que fica é: com uma estabilidade tão considerável dentro deste segmento, um aceno mais radical a ele garantirá os votos que o candidato precisa para vencer a disputa? Uma vez que, ao que parece, parte dessa vitória deverá ser creditada a um dos candidatos pelos eleitores que votaram em Luizianne no primeiro turno (em torno de 18%), canalizar a gramática da campanha para um nicho do eleitorado que já caminha com ele é eficaz na contagem final dos votos?

A julgar pelos números da pesquisa IBOPE divulgada em 23 de novembro, parece que a aposta do QG do candidato de radicalizar o apoio evangélico tem sua razão. A intenção de votos dele entre evangélicos seria de 45% contra 40% do seu opositor, mostrando uma certa divisão do eleitorado, mesmo com a intensa mobilização das maiores lideranças. Por exemplo, nesta quarta o pastor Munguba Jr realizou uma live, às 5h da manhã, com o candidato.

Com essa intensa mobilização da retórica em torno da defesa do que se diz serem “os valores cristãos”, Wagner sairá mais identificado com a gramática bolsonarista ao fim da eleição de 2020. Como dito no começo, até a promessa de “devolver Fortaleza aos cristãos”, declaração tão ao gosto da falsa ideia de “cristofobia” difundida em ambientes bolsonaristas, opera nesse sentido, unindo-se à retórica de outras candidaturas que, neste segundo turno, utilizaram-se de tal modus operandi.

*Emanuel Freitas é graduado em Ciências Sociais (2020) pela UECE, mestre em Ciências Sociais (2013) pela UFRN e doutor em Sociologia (2018) pela UFC. Professor de Teoria Política do curso de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Planejamento e Políticas Públicas (UECE). Pesquisador do LEPEM-UFC.

Campanhas de desinformação mobilizam conservadores contra líderes em votos

Campanhas de desinformação mobilizam conservadores contra líderes em votos

A poucos dias do segundo turno das eleições, o pleito parece ser atravessado por estratégias danosas ao debate democrático, com grupos valendo-se de disseminação de desinformação contra candidaturas que lideram pesquisas, como está claro nos casos de Recife, Belém, Fortaleza e Rio de Janeiro.

No Recife, pesquisa Ibope divulgada nesta quarta-feira (25) apontou liderança de João Campos (PSB), com 43%, ao passo que Marília Arraes (PT) soma 41%. A mudança no posicionamento dos candidatos pode ter como um dos motivos a campanha de desinformação em curso contra Marília, que se dá de forma explícita e implícita. Circula no Recife panfleto apócrifo com o título “Cristão de verdade não vota em Marília Arraes”. Nele, uma foto da candidata e, ao redor dela, balões com aquilo que a autoria não identificada quer relacionar com ela: defesa do aborto, legalização das drogas, ideologia de gênero. Há uma citação atribuída a ela na qual se posicionaria contra o costume de ler a Bíblia e falar em nome de Deus, cujo contexto não é explicitado. A questão foi parar no programa eleitoral de João Campos na TV, que também usou o argumento de que a petista era contra a Bíblia.

A defesa de Marília argumentou que a frase foi proferida durante discurso na Câmara Municipal, em que defendia a laicidade do Estado no âmbito das instituições públicas. A Justiça Eleitoral determinou a retirada do ar da propaganda, pois avaliou que falas foram tiradas de contexto e que tentam “confundir o eleitorado”. Além da referência à Bíblia, Campos dizia em sua propaganda que “a candidata Marília assinou documento para acabar com o Prouni Recife”, posicionamento que também foi retirado de contexto, de acordo com a decisão judicial.

Ainda que não seja possível comparar pesquisas de intenções de votos entre diferentes institutos, pois cada um segue metodologia própria, é útil ter em vista que, na última pesquisa Datafolha, realizada nos dias 18 e 19, Marília aparecia com 41% e João com 34%. 21% dos entrevistados mencionaram que votarão nulo ou branco e apenas 3% disseram-se indecisos. Ao serem questionados se a intenção de voto mencionada ainda pode mudar, 12% afirmaram que sim. Ou seja, embora a pesquisa tenha apontado vantagem da petista, muitos votos não estão consolidados. A forma como o eleitor recebe a “informação” nos panfletos pode comprometer a credibilidade dos candidatos – e provavelmente este efeito já está acontecendo, dado o resultado do Ibope do dia 25, em que João ultrapassou Marília.

Ainda naquela pesquisa Datafolha, dentre os entrevistados que se declararam evangélicos, 33% mencionaram ter preferência por Marília e 38% por João Campos. Entre os católicos, 44% preferiam Marília e 35% por Campos. Aqui já era possível verificar uma margem considerável de diferença que deve ter sido visualizada como espaço para crescimento para o candidato do PSB, que passou a buscar dar destaque a temas que mobilizam eleitores evangélicos. Demonstrando preocupação com o impacto da questão junto a este público, Marília, além de utilizar suas redes sociais, participou de um encontro com lideranças religiosas no domingo.

Outro tema que mobiliza bastante o eleitorado também tem sido levantado contra Marília: a corrupção. Reportagem da revista Veja destacou gravação de Túlio Gadelha (PDT-PE) que reforçaria suspeita de cobrança de ‘rachadinha’ pela candidata. O deputado divulgou nota rotulando a questão como “fake news” e detalhando que Marília já foi absolvida de acusações do tipo e que ação contra ela sobre possível ‘rachadinha’ está arquivado desde 2019. Mencionou ainda que o áudio está descontextualizado e que solicitou perícia para comprovar manipulação. O estrago, contudo, já está feito, como comprova a circulação, por meio do WhatsApp, de uma música irônica sobre a questão que trata a candidata como “Marília rachadinha”, adjetivo que também tem conotação sexual.

Em disputa acirrada, apologia conservadora à família é arma em Belém

Em Belém, a situação também é delicada. O candidato Edmilson (PSOL), que já foi prefeito por duas vezes, lidera as pesquisas de intenção de voto desde o primeiro turno, e chegou ao segundo turno com 34,2% dos votos válidos. Seu adversário é o Delegado Eguchi (Patriota), que obteve 23,06% dos votos e ultrapassou candidatos tradicionais na capital.

A pesquisa Ibope divulgada no último dia 20 apresenta empate técnico entre eles. Edmilson tem 45% e Eguchi 43%. Diante de um cenário indefinido e muito acirrado, campanhas de desinformação têm dominado o cenário.

Como verificado em Recife, São Paulo ou em outras capitais com candidaturas mais à esquerda, Edmilson tem sido alvo de ataques pelas redes sociais. Uma das notícias falsas que circula diz que ele irá construir banheiros de uso comum (unissex) e tornará a ideologia de gênero obrigatória nas escolas públicas e privadas, de forma que “as crianças escolherão se querem ser meninos ou meninas”. As notícias parecem ser requentadas em outros municípios – em Porto Alegre, Manuela D’Ávila fez uma publicação nessa semana dizendo que não irá tornar todos os banheiros unissex e declarando que essa era mais uma desinformação circulando.

No Instagram, também é possível encontrar postagens que ligam o candidato à pedofilia, zoofilia, aborto e outros temas que variam do polêmico ao absurdo. Apesar do candidato ser um defensor da diversidade, tais postagens não são verdadeiras. Por outro lado, o lema da campanha de seu adversário é “Deus, Pátria e Família”. Todo esse cenário tem esquentado nas campanhas, inclusive o debate da RBA (grupo Bandeirantes) foi marcado por acusações entre os prefeituráveis.

Evangélicos: último reduto para Wagner em Fortaleza

A desinformação pode pesar bastante em situações de disputa acirrada, como vimos nos casos já mencionados e no de Manuela D’Ávila. Mas também parece haver apelo a esse tipo de ataque diante da derrota iminente, ainda que seus resultados dificilmente levem a uma alteração significativa do quadro eleitoral.

É o caso da capital cearense, onde a última pesquisa Ibope, divulgada na segunda-feira (23), registra que José Sarto (PDT) lidera com 53% e Capitão Wagner (PROS) tem 35%. Panfletos apócrifos têm sido distribuídos em templos religiosos. Um deles traz as seguintes frases em destaque: “Por que meu pastor não vota no Sarto?”, “Sou evangélico(a), por que não devo votar no Sarto?” e “Portanto, no próximo domingo não se omita, vote em defesa da família e da sua fé”.

Além de fazer referências a supostos posicionamentos de Ciro Gomes, apoiador de Sarto, sobre fechamento de templos e “fim da moral cristã”, diz que o grupo do candidato é “totalmente comprometido com a política gay para as crianças” e teria implementado, na cidade de Sobral, o “ensino da ideologia de gênero, que visa erotizar nossos filhos”. Afirma ainda que o grupo é favorável ao aborto. Recortes de manchetes de jornais são utilizados para “confirmar” todo o exposto, sem vinculação a cada denúncia e desprovidos de contexto. Ocorre que Sarto está longe de ser um candidato radical, sendo melhor classificado como um político tradicional, sem participação em debates mais polarizados pelos diferentes espectros políticos.

O panfleto, embora não seja assinado, repete argumentos que têm sido espalhados também por meio de vídeos nas redes sociais. Em um deles, o pastor Silas Malafaia cita que os partidos de esquerda foram a favor da “ideologia de gênero”, que seria um “lixo moral”. Menciona ainda que os partidos teriam entrado no Supremo Tribunal Federal para impedir que mulheres denunciassem estupradores. Na verdade, a ação movida pelo PT, PCdoB, PSB, PSOL e PDT contesta portaria do Ministério da Saúde que estabelece uma série de diretrizes sobre o aborto em caso de estupro, que é permitido por lei.

A estratégia volta-se ao único setor em que Wagner lidera as intenções de voto. De acordo com pesquisa Datafolha divulgada em 20 de novembro, entre eleitores que se declararam evangélicos, o candidato do PROS concentra 53%, contra 35% de Sarto. Sarto aparecia com 59% e Wagner, com 41%. A necessidade de apelar para a mobilização do voto evangélico deve ter ficado clara para a equipe do candidato. Considerando as demais variáveis, Sarto lidera ou, no máximo, empata. Interessante perceber que, nesta pesquisa, a diferença era menor que a visualizada pelo Ibope. Mesmo entre católicos, Sarto contava com 60% das intenções. O adversário, com 35%.

A mobilização de conteúdos de cunho religioso não tem sido a única estratégia contra Sarto. No sábado (21), a Justiça concedeu direito de resposta após Capitão Wagner disseminar conteúdo ligando o pedetista a facções criminosas, afirmando que estas permitiriam a campanha dele, o que seria indício de proximidade.

Por outro lado, assim como desde o início da campanha, os ataques contra Wagner centram-se na participação na greve da Polícia Militar em fevereiro deste ano, apontadas como motim em comunicações de candidatos e políticos, como já mostramos neste Observatório, e em imagens que povoam grupos de WhatsApp e redes sociais em geral. É difícil não associar o limite de crescimento de Wagner exatamente à vinculação com a pauta e grupos que o alçaram à política institucional. Com dificuldades de tornar o teto mais distante, seus apoiadores buscam aproximá-lo do setor mais conservador, com o qual ele buscou evitar ser rotulado no primeiro turno, o que, inclusive, o fez evitar a presença explícita de Jair Bolsonaro na campanha.

O “kit gay” volta às eleições no Rio de Janeiro

A mobilização do sentimento religioso conservador tem ocorrido com força também no Rio de Janeiro. O bispo e atual prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) aparece bastante distante do primeiro lugar na última pesquisa Datafolha, Eduardo Paes (54%), registrando apenas 21% das intenções de voto. O levantamento foi divulgado no dia 19. De lá para cá, como noticiou o UOL, moradores receberam panfleto apócrifo que dizia, sem provas, que Paes (DEM) é a favor da legalização do aborto, da liberação das drogas e do “kit gay” nas escolas municipais. No folheto, assinado pela própria campanha de Crivella, Paes aparece ao lado de Marcelo Freixo (PSOL), apresentado como “amigo” do candidato.

Não parou por aí. Em vídeo divulgado nas redes, Crivella disse que o PSOL tentaria implementar “pedofilia nas escolas”, em um eventual governo de Eduardo Paes (DEM). A mentira acabou gerando muita reação negativa. Levantamento feito a pedido de O Globo no Twitter mostrou que 95% das mensagens foram de crítica à declaração de Crivella. O principal influenciador do debate foi o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL). Não é possível mensurar, contudo, o alcance desse tipo de conteúdo em grupos menos abertos ao contraditório, como grupos religiosos no WhatsApp. De todo modo, o exemplo do Twitter e os resultados das pesquisas no Rio são úteis para notarmos que não basta produzir um conteúdo apelativo para crescer.

Complexidade no processo de comunicação e decisão do voto

O processo de comunicação e a própria decisão pelo voto são muito complexos. Na reta final da corrida eleitoral, como em 2018, fica nítida a tentativa de mobilização do eleitorado conservador por meio do destaque a temas relacionados a gênero e religião, com o objetivo de influenciar especialmente o voto de evangélicos conservadores. Se, no primeiro turno, as campanhas estavam pulverizadas entre diversas candidaturas e optaram por um discurso mais ameno, de apresentação dos prefeituráveis e de suas propostas, agora a polarização parece voltar à tona. Superar esse tipo de instrumentalização com amplo debate na sociedade é necessário para frear ou, ao menos, reduzir o impacto das campanhas de desinformação.

Cenário indefinido em Belém entre Psolista e bolsonarista

Cenário indefinido em Belém entre Psolista e bolsonarista

Belém é uma das capitais que mais desperta a atenção do país. Primeiro devido à chegada de um candidato psolista ao segundo turno, algo que só se repetiu em São Paulo nessas eleições. E também por ser uma das poucas capitais em que um candidato bolsonarista supera nomes tradicionais da política local e chega competitivo na reta final do segundo turno.

Desempenho dos candidatos nas pesquisas

A pesquisa Ibope/TV Liberal divulgou no último sábado (21) a primeira pesquisa de intenção de votos no segundo turno. De acordo com o levantamento, os dois candidatos estão tecnicamente empatados. Edmilson Rodrigues (PSOL) aparece com 45% das intenções de voto contra 43% do delegado federal Eguchi (Patriotas).

O cenário eleitoral em Belém está indefinido, mas há boas chances para a volta de um partido de esquerda para o comando da capital paraense.

Nas alianças de segundo turno, Edmilson recebeu apoio do candidato do PSB, Cássio Andrade, que teve 8,8% dos votos. O Partido Verde (PV), que estava apoiando o candidato Thiago Araújo no primeiro turno, e o Republicanos, partido pelo qual Araújo disputou a eleição, também estão apoiando o psolista.

O PSDB, por sua vez, declarou apoio ao nome do Patriotas. Apesar de não haver um apoio formal do candidato do MDB, que declarou neutralidade, é de se esperar que devido às rivalidades desta legenda com o PSDB na capital paraense, a maior parte do eleitorado que votou no candidato do MDB dirija-se preferencialmente para Edmilson.

Cenário não previsto

As pesquisas de intenção de voto não previam a disputa entre os dois candidatos que estão no segundo turno. Entre os candidatos mais bem posicionados nas pesquisas de primeiro turno, estava o candidato do PSOL, Edmilson Rodrigues, em aliança com diversos partidos de esquerda (PT, PDT, PCdoB, PCB, UP e Rede), e o candidato do MDB, José Priante, partido que ocupa atualmente o governo do Estado e ligado à família Barbalho.

Dois outros candidatos apareciam como relevante nas pesquisas, Thiago Araújo, do Cidadania, apoiado pelo atual prefeito Zenaldo Coutinho do PSDB, partido que não lançou candidato, e Everaldo Eguchi, do Patriotas, que não fez coligação com nenhum partido.

Contrariando o que indicavam as pesquisas, o candidato do Patriotas, mesmo com pouco tempo de propaganda na TV, chegou ao segundo turno, vencendo o candidato apoiado pela família Barbalho e estabelecendo-se como uma força política relevante para a disputa da Prefeitura, agora com o apoio declarado do presidente Jair Bolsonaro.

A candidatura do Delegado Eguchi ganhou força na última semana do primeiro turno e obteve como resultado 23,6% dos votos válidos contra 34,22% do candidato do PSOL. Priante ficou com 17,3% e Thiago Araújo com 8,09% dos votos válidos.

A eleição em Belém teve cerca de 20,7% de abstenção, 3,4% de votos brancos e 5,8% de votos nulos.

Quem são os candidatos Edmilson Rodrigues e Everaldo Eguchi

Edmilson Rodrigues nasceu em 1957 na cidade de Belém, capital do Pará. É arquiteto formado pela Universidade Federal do Pará (UFPA), com mestrado em Planejamento do Desenvolvimento pela UFPA e doutorado em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP). É professor da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) desde 1982 e possui vários livros publicados sobre política urbana.

É um político de grande tradição no Pará, tendo sido eleito deputado estadual pelo PT em 1986 e 1990. Elegeu-se prefeito de Belém pelo PT em 1996 e foi reeleito em 2000. Em 2005, trocou o PT pelo PSOL, pelo qual foi eleito deputado estadual em 2010 e deputado federal em 2014 e 2018.

Durante sua passagem pela prefeitura de Belém, Edmilson Rodrigues fez uma gestão pautada na implantação de projetos sociais e culturais e pela revitalização de áreas periféricas da cidade. Saiu da Prefeitura como um governante bem avaliado, tendo recebido vários prêmios internacionais, entre eles o prêmio de Prefeito Amigo da Criança, concedido pela ONU por dois anos consecutivos. Também obteve êxito em projetos sociais que retirava crianças em condições de vulnerabilidade social que trabalhavam com os pais na área de depósito de lixo, conhecido como Lixão do Aurá, oferecendo apoio social, financeiro, educacional e profissional para toda a família. Obteve elevado destaque em políticas como o banco do povo e família saudável, entre outros.

Everaldo Eguchi nasceu em 1963 no município de Tomé-Açu (PA). Formado em economia e direito, ingressou na Polícia Federal como delegado em 2007. Em sua atuação profissional participou das operações da Lava Jato dentro do Estado do Pará, o que lhe ofereceu certo capital político para ingressar nas arenas decisórias da política tradicional. Entretanto, o candidato possui pouca experiência neste campo, pois disputou sua primeira eleição somente em 2018, concorrendo a deputado federal pelo PSL, mas não conseguiu se eleger.

Apoiador do presidente Jair Bolsonaro, ele chegou a ser cotado para ser superintendente do Ibama no Pará, o que acabou não se confirmando.

Apesar de não ter recebido apoio formal do presidente da República no primeiro turno, Eguchi fez uma campanha associada à Bolsonaro com o slogan “#fechadocombolsonaro”. Tem feito críticas à “velha política” e apresentado a bandeira de combate à corrupção como uma de suas principais propostas. Tem prometido também uma gestão técnica sem “amarras ideológicas”.

Estratégias para o segundo turno

A candidatura de Edmilson Rodrigues, além da propaganda tradicional nas ruas e na TV, tem estabelecido estratégias de divulgação nas redes sociais, tentando atrair especialmente o eleitorado mais jovem e neutralizar as propagandas de fake news e desqualificação do candidato do Patriotas utilizadas pela direita conservadora.

Em sua campanha, Edmilson tem utilizado o slogan “Belém de novas ideias”, procurando destacar a participação cidadã que será o foco de sua gestão, por meio da criação de canais de comunicação com a sociedade civil e de plataformas para colaboração mútua. Entre suas prioridades estão o estabelecimento de políticas urbanas e ambientais, acesso à moradia, saneamento, transporte urbano e atenção à preservação do patrimônio histórico e cultural da cidade.

Já o Delegado Eguchi apresenta-se na disputa como um candidato “outsider”, ou seja, um candidato com pouca ou nenhuma experiência na política partidária. Tem procurado surfar na onda que elegeu Jair Bolsonaro em 2018, utilizando uma narrativa fortemente pautada pelo discurso anti sistema e rechaço da ordem estabelecida. Busca atrair o eleitorado mais conservador e descontente com a política tradicional e aquele que deu a vitória a Jair Bolsonaro na cidade de Belém em 2018. O lema de sua campanha é “Deus, Pátria e Família”.

O candidato já recebeu apoio formal do partido Solidariedade e do PSDB, partido do atual prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho, que não lançou candidato. Entretanto, a gestão do atual prefeito foi considerada ruim, tendo sido reprovada por 76% da população de acordo com a última pesquisa do Ibope divulgada no dia 20 de novembro, o que pode não ser tão favorável ao candidato, principalmente nos bairros mais carentes.

O programa de Eguchi para o segundo turno reforça as estratégias de combate à corrupção, com divulgação de informações por meio de plataformas eletrônicas e promoção de treinamentos especializados para as forças de segurança pública da cidade no combate à criminalidade. Em sua campanha, há um forte apelo ao mercado, através da promoção de parcerias público-privadas, de forma a diminuir o papel do setor público na gestão da cidade.

Entre as propostas, também há a implantação de planos para elevar Belém ao conceito de “cidade inteligente”, através da adoção de tecnologias da informação e comunicação para otimizar a eficiência das operações e serviços do setor público e sua integração com os cidadãos. Na área da educação prevê a implantação do Projeto Municipal de Escolas Cívico-Militares. Também tem destacado a substituição dos aterros sanitários pelas usinas de biodigestores para gerar energia através de esgoto e lixo.

Resultado incerto em Belém

A eleição em Belém desperta grande interesse, pois é o cenário mais evidente de um candidato fortemente vinculado ao bolsonarismo contra um candidato fortemente identificado com as políticas sociais defendidas pelos partidos de esquerda. O resultado na capital paraense ainda é incerto.

*Carlos Augusto da Silva Souza é mestre e doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Estado do Rio de Janeiro, com pós-doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais. É professor associado da Universidade Federal do Pará (UFPA), onde atua no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e na Faculdade de Ciências Sociais. É líder do grupo de pesquisa: “Observatório Eleitoral do Estado do Pará”, e atualmente ocupa a direção da regional Centro-Norte da ABCP.
Luciana Santana é mestre e doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais, com estância sanduíche na Universidade de Salamanca. É professora adjunta na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), líder do grupo de pesquisa: Instituições, Comportamento político e Democracia, e atualmente ocupa a vice-diretoria da regional Nordeste da ABCP.

Desinformação e violência na política: as armas contra Manuela D’Ávila

Desinformação e violência na política: as armas contra Manuela D’Ávila

Manuela D’Ávila (PCdoB), que despontou nestas eleições como favorita na disputa pela prefeitura de Porto Alegre, enfrenta mais um momento desafiante em sua trajetória política. De acordo com pesquisa Ibope divulgada nesta terça-feira, 24, Sebastião Melo (MDB) tem 49% e Manuela, 42%. Quando considerados os votos válidos, são 54% e 46%, respectivamente. A margem de erro, os sempre imponderáveis últimos dias de campanha e o resultado concreto das urnas podem levar a mudanças, claro. Mas contra Manuela, que terminou o primeiro turno apenas 2% atrás do adversário, pesam as campanhas de desinformação com teor explicitamente misógino.

Nas redes, crescem ataques pessoais combinados a conteúdos que buscam gerar medo na sociedade, a partir da mobilização de temas como o comunismo. O machismo fica nítido ao se observar o que circula em plataformas como o WhatsApp contra Manuela, imagens que opto por não expor aqui para reduzir a circulação da desinformação, ainda que sejam facilmente encontradas na internet. Muitas expõem e manipulam fotos da candidata, com ênfase em seu corpo e rosto. A aparência é o foco dos ataques. Tenta-se imputar a ideia de irresponsável. Em uma montagem são acrescidas tatuagens com rostos de líderes como Che Guevara e Lênin e uma frase que questiona o que seria a prefeitura liderada por ela. É feito também contraponto com o que seria a mulher ideal. Manuela tem tido sua imagem frequentemente comparada à de Michele Bolsonaro. Esta, sim, é apresentada como “recatada e do lar”.

Uma postagem afirma que Manuela trocou ‘o crucifixo no ânus por um escapulário católico’ e agora, apenas por ser campanha eleitoral, vale-se de ‘roupas recatadas’. Há ainda uso de uma fotografia de Manuela aos 15 anos, acompanhada do seu pai, insinuando que se tratava de seu namorado. Em outra, aparece a adolescente sozinha. A exposição vem acompanhada de uma legenda dizendo que Manuela odeia a foto, e convidando os outros a divulgá-la com o intuito de atacar a sua aparência “Só de marra vamos compartilhá-los ao máximo”, diz o texto.

No Twitter, circula áudio atribuído à coordenação da campanha de Sebastião Melo (MDB), que lidera as pesquisas de intenção de voto no segundo turno da disputa à prefeitura de Porto Alegre, em que Manuela é chamada de “vadia”. Divulgado pelo ativista Luiz Muller e por veículos como a Fórum e a Agência Pública, no áudio diz-se que: “Se entrar essa vadia ai vai ser um problema muito sério para a cidade”. A autoria não foi confirmada.

Ataques envolvendo corrupção, suposta ditadura venezuelana e atrocidades atribuídas a regimes comunistas são lançados contra a candidata. Exemplo disso, circula boato de que ela teria sido presa por conta da delação da Odebrecht, processo já arquivado pelo Ministério Público. Com mais de 130 mil visualizações em apenas sete horas de disponibilização na segunda, 23, vídeo do canal Giro de Notícias intitulado “A PRISÃO DE MANUELA D’AVILA, O MAIOR ATAQUE DA MÍDIA NO BRASIL, POLÍCIA FAZ LIMPEZA”. O conteúdo também está sendo compartilhado no WhastApp, de acordo com o Radar da agência de verificação Aos Fatos.

Uma hashtag #ManuzuelaNão sintetiza essa vertente de ataques. Após o assassinato de José Alberto Freitas, morto por asfixia por seguranças do Carrefour, e os protestos em repúdio à execução na última sexta-feira, 20, Manuela também passou a ser responsabilizada. É o caso do conteúdo apresentado como notícia no portal Terra Brasil Notícias, que tem como lema “Deus acima de tudo e de todos”. Link que destaca o título “Irresponsável: Comunista Manuela D’Ávila usou redes sociais para convocar protestos que terminaram em violência” tem sido compartilhado, assim como post adulterado de Manuela sobre o caso, no qual ela convocaria os protestos.

Merece destaque o uso de adjetivo não só pejorativo, como contrário ao que o patriarcalismo diz ser esperado de uma mulher (responsabilidade, cuidado). Não é o mesmo tipo de ataque que vemos, por exemplo, no caso de Guilherme Boulos (PSOL), na disputa para a prefeitura de São Paulo.

A violência de gênero é explícita – ataques a candidatos homens são diferentes

O mesmo site Terra Brasil Notícias publicou: “Boulos vira motivo de piadas nas redes após dizer que problema da previdência é número baixo de funcionários públicos”. No Twitter, ganhou repercussão tweet em que Boulos teria escrito defender abrigar moradores de rua na casa de quem tem quartos vagos, o qual foi postado por uma conta falsa. Ainda no primeiro turno, como abordado aqui, acusação falsa de que teria contratado empresas fantasmas ganhou lastro. São, pois, temas relacionados ao conteúdo político, não aos atributos pessoais, muito menos ao corpo do candidato.

Embora se tratem ambos de políticos que abraçam visões de mundo de esquerda, há uma abordagem diferente, que leva a crítica para a dimensão pessoal no caso das campanhas arquitetadas contra Manuela. É o que vemos no texto também identificado pela Aos Fatos em grupos do WhatsApp: “A comunista patricinha, no primeiro turno vinha ‘pagar de boa moça’, acusava os adversários de fazer campanha suja contra ela, a mesma inclusive em seus lixos de propagandas na teve, disse que ela era contra isso, pois tinha projeto. Como todo mundo sabe, ELA TRAÍ, e agora ELA vem fazer no horário eleitoral a mesma coisa que ela julgava errado antes. Assim é o PT, PSOL, PCdoB e PDT, usam mulheres, usam vidas negras, usam todo mundo para chegar no poder. E você vai cai nisso, ou vai dar um “tapa de luva” nestes lixos e votando 15 em Melo”.

O compartilhamento do link e a referência à “traição” mostram ainda a retroalimentação que se dá entre as mídias e também expressa como as violências contra as mulheres na política são recorrentes e perpetuadas, inclusive pela ausência de responsabilização. Como costuma ocorrer nas campanhas de desinformação, as agressões na rede são alimentadas por amplificadores, como o candidato Rodrigo Maroni (Pros), que no último debate do primeiro turno disse que Manuela “mentia e dissimulava”. “Tu é patricinha mimada, poderia estar comprando bolsa no shopping. Se eu fosse abrir a boca, eu não acabaria com a carreira, mas com tua vida, Manuela”, afirmou. No primeiro debate entre candidatos, Maroni, ex-noivo da pcdobista, também havia desferido ataques machistas contra ela, acusando-a de traição, o que foi amplamente repercutido na mídia.

O impacto eleitoral das campanhas de desinformação

Dadas a opacidade das plataformas digitais e a diversidade de canais de comunicação, é difícil precisar o volume dos ataques e seus impactos. Entretanto, a resposta judicial, sempre menor do que o que realmente ocorre, pois as investigações dependem dos conteúdos serem encontrados e denunciados, permite-nos traçar contornos do quadro. Ainda no primeiro turno, quando Manuela aparecia na liderança das pesquisas de intenção de votos, a Justiça Eleitoral determinou que Facebook, Instagram, Twitter e YouTube retirassem do ar meio milhão de compartilhamentos de conteúdo falso contra ela. O somatório refere-se a apenas dez postagens denunciadas. Não é inexpressivo.

Some-se a isso ainda o fato de campanhas de desinformação contra Manuela serem antigas e permanentes. Após dividir chapa com Fernando Haddad (PT) à presidência da República nas eleições de 2018, marcadas pelo fenômeno da desinformação e intolerância nas redes sociais, Manuela chegou a criar o instituto E Se Fosse Você?, uma organização não-governamental, e lançou o livro “E Se Fosse Você? Sobrevivendo às redes de ódio e fake news”.

Estas campanhas desinformativas podem ajudar a explicar a alta rejeição de Manuela – 38%, de acordo com a pesquisa Ibope de 14 de novembro, um dia antes do primeiro turno. Em uma curta campanha eleitoral, mitigar efeitos ou mesmo mudar entendimentos acerca da candidata não é tarefa fácil, ainda mais quando a artilharia inimiga não dá trégua. Essa perseguição já era apontada como empecilho para a corrida eleitoral de 2020. Em artigo publicado neste Observatório em 31 de outubro, Céli Pinto sentenciava que o segundo turno em Porto Alegre contaria com a participação de Manuela e que não seria fácil. Entre os motivos, o fato da candidata ser vítima desse tipo de violência política.

Não é difícil concluir: campanhas de desinformação permeadas por misoginia são as principais armas utilizadas contra Manuela D’Ávila. Elas representam um grande entrave para que a parlamentar, que já acumula mandatos e experiência política, consiga alcançar a prefeitura de Porto Alegre. Uma situação que evidencia a violência que atravessa as vidas das mulheres que ocupam a política. Muitas têm seus corpos enfatizados, seus atos ignorados, suas opiniões diminuídas, seus espaços cortados. Com menos de uma semana para o pleito, parece difícil que haja tempo e condições para reverter a situação, até porque ela tem raízes na cultura e nas instituições.