O que está em jogo: religião, valores e política

O que está em jogo: religião, valores e política

No esforço de manter a dianteira após o primeiro turno, a campanha de Lula mudou a estratégia com relação a um dos pontos sensíveis da eleição: a relação entre valores, religião e política. O Observatório das Eleições tem acompanhado postagens de atores ligados às duas campanhas nas redes sociais, onde essa mudança é bastante clara. 

 

Até o início de outubro, postagens no Twitter relacionadas ao tema da religião representavam 18% do total de publicações dos perfis bolsonaristas acompanhados. Entre os atores do campo lulista, não passavam de 10%. No período de 3 a 20 de outubro, no entanto, essa porcentagem sobe para 20%, superando a do campo bolsonarista. No YouTube vemos dados similares: a comparação entre os temas dos vídeos publicados no primeiro e no segundo turno mostra que religião foi o tema que mais cresceu entre atores do campo lulista.

 

A mudança da estratégia petista vai além de simplesmente falar mais sobre o tema, no entanto. A ampliação das menções à religião pode ser entendida a partir de dois movimentos distintos. Primeiro, a contraofensiva, desencadeada em boa medida por fora dos perfis oficiais da campanha, que associa Bolsonaro à maçonaria, à intolerância religiosa e até ao satanismo, virando assim a mesa da narrativa bolsonarista. Em paralelo, há também um movimento de aproximação a setores religiosos, em especial evangélicos, cujo maior símbolo é uma carta divulgada no dia 19 de outubro. 

Logo no início do segundo turno, vídeos sobre Bolsonaro e a maçonaria repercutiram tanto entre apoiadores de Lula, como entre atores do outro campo. O episódio foi um raro momento da campanha em que o campo progressista obrigou o adversário a defender-se sobre um tema que envolvia religião. E foi o primeiro de vários que se sucederam.

 

A partir da semana do 12 de outubro, vídeos feitos por apoiadores de Lula circularam amplamente, mostrando fiéis bolsonaristas indignados, interrompendo, aos gritos, missas do dia de Nossa Senhora Aparecida, hostilizando outros fiéis ou questionando homilias. Um desses vídeos mostra, por exemplo, a reação à menção a Marielle Franco  por um padre. Aos berros, duas mulheres interrompem a missa para dizer que o padre não poderia mencionar o nome de uma homossexual. Também bradam notícias falsas sobre Marielle, já fartamente desmentidas. Uma internauta comentou “mais uma apoiadora de Bolsonaro interrompendo uma missa e hostilizando o padre. Eles querem destruir a Igreja Católica”. É o feitiço voltando-se contra o feiticeiro, porque até então a única narrativa anti-Igreja era uma narrativa anti-Lula. 

 

Um olhar detalhado para o conteúdo das mensagens ratifica a mudança. Algumas das que foram mais reencaminhadas antes do primeiro turno tendiam a questionar a aproximação entre evangélicos e Bolsonaro, com textos como: “saudade quando os evangélicos queriam que a gente aceitasse Jesus e não o Bolsonaro”. No segundo turno, as mais retuitadas no campo de atores acompanhado pelo Observatório das Eleições são de ataque e de construção de contra-narrativas: “EITA! Vídeo de Bolsonaro na maçonaria vem à tona. A sociedade discreta tem como membros Carla Zambelli, Jorginho Mello (…)”. E, ainda: “se Lula ganhar, Igrejas NÃO serão fechadas. Se Bolsonaro continuar, Universidades SERÃO fechadas.”

 

Neste segundo movimento, pela primeira vez nesta campanha, viu-se o campo lulista demonstrar sua força no campo das discussões morais, ou religiosas.

Além disso – e esse é um aspecto que foi menos comentado -, ficou visível a existência de divisões ideológicas também entre os católicos. Há tempos sabemos que evangélicos, católicos e outros grupos religiosos são internamente heterogêneos e que também têm muitas divergências entre si. Isso, porém, vinha passando ao largo dos debates eleitorais de 2022. Texto de cientistas políticos publicado recentemente no Nexo apontava para isso ao discutir possibilidades de diálogo da campanha petista com evangélicos. Desde a fundação do PT, também se sabe que o partido tem raízes nos setores progressistas da Igreja Católica. 

 

Menos do que uma contraposição entre uma ou outra religião, é o conjunto de valores no interior de cada uma delas que está em disputa. E o PT, para se manter na liderança, precisa superar a percepção construída durante a campanha de que pode ser ameaça aos valores conservadores. Daí o segundo movimento.

 

A divulgação da “Carta Pública ao Povo Evangélico” em 19 de outubro abre mais um capítulo dos esforços petistas para angariar apoios entre cristãos, ou pelo menos neutralizar o discurso bolsonarista. No primeiro turno já houve, como se sabe, aproximação com lideranças evangélicas e a preparação de materiais de campanha voltados especificamente a este público. Até ali, a principal tendência era disputar interpretações de textos bíblicos – a disputa entre armas e amor, autodefesa e o valor da vida, por exemplo.

 

Comparada com alguns desses materiais, nos quais a questão dos direitos e do papel do Estado para garantir direitos era o tom central, a nova carta faz um movimento mais intenso de aproximação das pautas conservadoras. Primeiro, reafirma o compromisso com a liberdade de culto e de religião, depois posiciona-se diretamente sobre questões de valores com ênfase nas famílias e jovens. Menciona políticas públicas apenas na parte final do texto, e também ali a ênfase é no lar: a casa para a família, com referência ao programa Minha Casa Minha Vida.

Desloca-se o foco da atuação do Estado na proteção das populações mais vulneráveis para a  possibilidade de cada pessoa – ou família – “adquirir necessários e suficientes meios para viver dignamente por seu trabalho, sem ter que depender da ajuda do Estado”. Há aí uma visível mudança de tom.

 

Detectar esses movimentos, porém, não significa dizer que terão impactos nas urnas. Aliás, essa segunda virada pode complicar a vida dos petistas com seus apoiadores de primeira hora, em caso de eleição, mas a campanha parece confiar que a ampliação do espaço para outras pautas não vai minar a adesão de seus apoiadores mais estáveis.

 

Do outro lado, a campanha bolsonarista precisou pela primeira vez atuar reativamente no campo dos valores, sem deixar de apostar suas fichas na mobilização da pauta conservadora. A questão, agora, é qual dos dois conjuntos vai convencer os poucos indecisos e os muitos ausentes a tomar partido. 

Marisa von Bülow é professora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília e doutora em ciência política pela Universidade Johns Hopkins (EUA). Suas publicações tratam do tema do ativismo digital, das estratégias digitais eleitorais e das relações entre sociedade e Estado. 

 

Priscila Delgado de Carvalho é pós-doutoranda no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (Inova Juntos) e pesquisadora do INCT-IDDC (Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação). Investiga a atuação de atores coletivos em processos democráticos, com ênfase na transnacionalização de movimentos sociais e sindicatos rurais e percepções de cidadãos sobre autoritarismo e democracia. Doutora em ciência política pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Na reta final das eleições, deep fakes e a reação da imprensa

Na reta final das eleições, deep fakes e a reação da imprensa

 Marisa von Bülow, Eliara Santana e Thayla Souza

Publicado no GGN

O fundamental é entender que esse vídeo é parte de uma estratégia coordenada de construção de um caos informacional

Na semana que passou, a viralização do trecho de uma reportagem do Jornal Nacional com dados recentes da pesquisa Ipec causou grande furor e aumentou ainda mais a tensão eleitoral da reta final. A reportagem mostrava, pela voz do âncora William Bonner, que o candidato Jair Bolsonaro estava à frente do candidato Lula. Mas o vídeo era falso, e as vozes dos apresentadores Bonner e Renata Vasconcellos haviam sido adulteradas para apresentar dados falsos da também falsa pesquisa eleitoral. O potencial de estrago em termos de desinformação era grande, mas parece que os efeitos foram contrários – o vídeo gerou fortes reações negativas de amplos setores políticos e da imprensa.

 

Há polêmica se o vídeo é mesmo um exemplo de deep fake ou se seria apenas shallow fake (uma versão menos sofisticada), mas, no fundo, isso não é o importante. O fundamental é entender que esse vídeo é parte de uma estratégia coordenada de construção de um caos informacional, que tem no anonimato e na capilaridade das redes sociais seus principais trunfos, e que vai ser ainda mais agressiva à medida que chegamos perto do dia da eleição.

 

Para entender melhor qual foi o impacto da repercussão do vídeo, fizemos uma análise do debate sobre le no Twitter, entre os dias 19 e 20 de setembro. Devido à presença dos principais atores do mundo da política e da mídia, o Twitter é uma plataforma que permite tomar o pulso dos debates e das narrativas utilizadas. E também dos silêncios.

Apesar de os internautas no Twitter terem marcado as contas do presidente Bolsonaro e de seus filhos em várias das mensagens da nossa base, nosso monitoramento mostra que não houve uma participação expressiva desses atores no debate. A conta oficial de Carlos Bolsonaro no Twitter, por exemplo, não publicou comentários sobre o tema (até o momento de fechamento deste artigo). No dia 20 de setembro, Flávio Bolsonaro bateu na tecla da fraude nas pesquisas, tuitando:

O ex-presidiário não enche um botequim, mas para o DataFolha e o Ibope (Ipec) o ladrão está liderando em todos os cenários.

A verdadeira pesquisa é o DATAPOVO! Essa não falhou em 2018 e não vai falhar em 2022!!

1º turno!!!! https://t.co/saI2w3kV7Z

 

Por outro lado, alguns defensores do presidente e candidato se mobilizaram publicando respostas na página do Jornal Nacional no Twitter. Duas foram as narrativas mais comuns. A primeira buscou atacar a credibilidade da Rede Globo de forma geral, sem entrar no mérito do caso específico: Deepfake é o que a Globo demonstra todos os dias, não precisam adulterar nada, tuitou um apoiador do presidente. A segunda narrativa buscou aprofundar ainda mais o clima de desconfiança ao jogar as suspeitas da autoria do vídeo para os apoiadores ou para a própria campanha de Lula.

 

A imprensa contra-ataca

O debate no Twitter foi dominado por mensagens críticas à desinformação, vinculando a deep fake diretamente à campanha bolsonarista. O grafo apresentado abaixo traz a visualização do comportamento dos atores, a partir do reencaminhamento de mensagens entre eles. Os maiores nós e de cor mais forte são aqueles responsáveis pelas postagens de maior disseminação na plataforma.

 

As cinco contas que tiveram suas mensagens mais reencaminhadas na rede são todas de jornalistas ou de organizações da mídia. O maior cluster se organiza em torno à conta do próprio Jornal Nacional, graças à ampla repercussão da publicação do vídeo desmentindo a deep fake, reencaminhada mais de 7 mil vezes. No dia 19 de setembro, o Jornal Nacional trouxe uma nota/matéria de mais de dois minutos que apontou o dedo e identificou a principal estratégia do bolsonarismo: a produção reiterada de fake news. Na matéria, William Bonner e Renata Vasconcellos enfatizaram que o vídeo fake que estava circulando tinha o objetivo claro de desinformar os eleitores e que era uma arma nova na guerra travada na internet nestas eleições. Foi de fato uma reação bem forte, que marcou um importante posicionamento do jornal, que não mediu palavras para apontar os responsáveis e ligar a produção de fake news a Jair Bolsonaro.

A publicação da resposta do Jornal Nacional repercutiu em destaque pelos usuários, sendo o conteúdo de maior replicação na plataforma durante o período monitorado. Outros atores da imprensa também foram centrais na rede mapeada, como as contas da Revista Fórum, do Intercept e de jornalistas como Vera Magalhães e Leandro Demori.

De forma geral, esses atores foram altamente críticos ao uso de estratégias de desinformação e mostraram preocupação com os possíveis impactos desse tipo de iniciativa. O tom das mensagens foi de alerta e preocupação com a integridade do processo eleitoral. A @revistaforum (438,1 mil seguidores) associou diretamente a utilização de deepfake à estratégia da campanha de Jair Bolsonaro, inclusive utilizando a expressão “fraude bolsonarista”. Segundo o site WFS News, que faz o monitoramento dos temas em destaque no Twitter (os chamados trending topics), a publicação da Revista Fórum, que aparece no nosso grafo, foi uma das mais populares.

Rede de Retuítes sobre a Deep Fake do Jornal Nacional (19 e 20 de setembro)

 

 

De fato, nem a escolha do conteúdo (o foco em pesquisas eleitorais) e nem dos atores (os âncoras do Jornal Nacional) foram aleatórias. O objetivo central da estratégia do caos informacional é semear desconfiança com relação ao processo eleitoral como um todo, seja lançando dúvidas sobre a lisura dos institutos de pesquisa, seja questionando a confiabilidade das urnas, da imprensa ou das autoridades eleitorais. Não importa tanto se os interlocutores acreditam ou não piamente no conteúdo encaminhado, contanto que se consiga semear a dúvida e causar controvérsia. Também não importa se o conteúdo é coerente com outras mensagens. Importa menos o teor, e mais o sentido político da mensagem. Paradoxalmente, a deep fake que se utilizou do Jornal Nacional é perfeitamente compatível com mensagens que questionam a lisura dos principais institutos de pesquisa e da Rede Globo. 

O que seria extremamente positivo e saudável – sem questionamento e crítica não há debate democrático – transforma-se em uma manipulação perversa, que dá margem não só ao crescimento da desconfiança, mas também à apatia política. Se o processo é corrompido, por que votar? E em quem, afinal, podemos acreditar?

Nota metodológica: A coleta de dados foi realizada entre os dias 19 e 20 de setembro de 2022. Foram coletadas publicações contendo o termo “deep fake” (e variações) em associação com o Jornal Nacional e seus respectivos âncoras. A extração das publicações se deu por meio da API oficial do Twitter. A base de dados contém 30.936 entradas, entre postagens únicas (1.267) e replicações de conteúdos sobre o tema.

Urna eletrônica perde espaço para STF

Urna eletrônica perde espaço para STF

Marisa von Bülow e Bia Calza*

Publicado no Blog do Noblat

As iniciativas recentes do Poder Judiciário, direcionadas a combater ações que colocam em xeque a integridade do processo eleitoral, parecem insuflar cada vez mais a base de apoio do presidente da República. É o sentimento de indignação frente a essas iniciativas que está sendo utilizado (e incentivado) para chamar a população às ruas no dia 7 de setembro. Em especial, o Ministro Alexandre de Moraes tem sido o principal alvo de uma narrativa que argumenta que é preciso ir às ruas para salvar o país de uma crise constitucional.

A literatura da ciência política ensina que, para que uma mobilização como a de 7 de setembro tenha sucesso, é preciso que seus organizadores apresentem claramente três tipos de argumentos: o diagnóstico (que apresenta o problema a ser solucionado e identifica o alvo do protesto), o da mobilização (que justifica a necessidade de ir para as ruas) e o prognóstico (que oferece a solução para o problema identificado).

Nesse sentido, é bem típico da retórica populista que o alvo da mobilização seja apresentado como um inimigo do povo. E típico da retórica autoritária é que tanto o diagnóstico como o prognóstico ataquem e enfraqueçam as instituições democráticas. A junção de ambas as retóricas – populista e autoritária – não é novidade. Pelo contrário: vimos acontecer na eleição presidencial de 2018 e, de fato, ao longo de todo o mandato de Jair Bolsonaro. Durante a pandemia, os inimigos eram o STF e os governadores, que não deixavam o presidente trabalhar. Em outras ocasiões, era o Poder Legislativo, parte da imprensa ou a esquerda de forma geral. Ao longo de todo o seu mandato, foram muitas as ocasiões em que os apoiadores do presidente usaram a retórica do inimigo para defender uma virada autoritária, representada pela frase “Eu autorizo”.

Às vésperas do 7 de setembro, essa retórica antagonista e autoritária tem sido intensificada, à luz das iniciativas recentes do Poder Judiciário. O Partido dos Trabalhadores e o ex-presidente Lula continuam sendo inimigos a derrotar, mas ganham muito mais proeminência, como “novos inimigos”, a justiça eleitoral, o Supremo Tribunal Federal, e, especialmente, sua encarnação no juiz Alexandre de Moraes. Enquanto Lula é uma possibilidade do futuro, caso eleito, a denominada “ditadura da toga” é, nessa narrativa, a ameaça do presente. É, portanto, muito mais urgente. A identificação de um setor do judiciário como o inimigo principal transforma o diagnóstico do problema a ser enfrentado: da ameaça comunista potencial à ditadura da toga real.

Ao mesmo tempo, é também ajustada a retórica mobilizadora. Nessa narrativa, a democracia brasileira já está sob ataque, independentemente do resultado eleitoral. Ainda que Jair Bolsonaro seja reeleito, algo precisa ser feito para salvar o país, e precisa ser feito já. Daí o tom de urgência das convocatórias para a mobilização e a ênfase na “liberdade” como a principal palavra-chave associada ao 7 de setembro.

Daí também a diminuição da ênfase nos argumentos sobre fraude nas urnas e transparência eleitoral (ainda que esses temas não tenham sumido e possam voltar ao centro dos debates rapidamente). No Youtube, por exemplo, o monitoramento dos principais canais de apoio ao presidente mostra que eles publicaram mais de 400 vídeos com a temática do 7 de setembro no mês de agosto. Os 100 vídeos com maior número de visualizações sequer tocam no assunto “urna eletrônica” na sua chamada. Por outro lado, 24 fazem alguma menção ao STF ou aos seus ministros no título, enquanto apenas 6 mencionam Lula, a esquerda ou o PT.

Quanto ao prognóstico, ou seja, a solução para o problema, muitas mensagens têm focado especificamente na pessoa de Alexandre de Moraes. Nos últimos 30 dias, um monitoramento privado de aproximadamente 980 grupos bolsonaristas no WhatsApp mostrou que circularam 256 mensagens com textos variados pedindo o impeachment do ministro.

Ao mesmo tempo, é também ajustada a retórica mobilizadora. Nessa narrativa, a democracia brasileira já está sob ataque, independentemente do resultado eleitoral. Ainda que Jair Bolsonaro seja reeleito, algo precisa ser feito para salvar o país, e precisa ser feito já. Daí o tom de urgência das convocatórias para a mobilização e a ênfase na “liberdade” como a principal palavra-chave associada ao 7 de setembro.

Daí também a diminuição da ênfase nos argumentos sobre fraude nas urnas e transparência eleitoral (ainda que esses temas não tenham sumido e possam voltar ao centro dos debates rapidamente). No Youtube, por exemplo, o monitoramento dos principais canais de apoio ao presidente mostra que eles publicaram mais de 400 vídeos com a temática do 7 de setembro no mês de agosto. Os 100 vídeos com maior número de visualizações sequer tocam no assunto “urna eletrônica” na sua chamada. Por outro lado, 24 fazem alguma menção ao STF ou aos seus ministros no título, enquanto apenas 6 mencionam Lula, a esquerda ou o PT.

Quanto ao prognóstico, ou seja, a solução para o problema, muitas mensagens têm focado especificamente na pessoa de Alexandre de Moraes. Nos últimos 30 dias, um monitoramento privado de aproximadamente 980 grupos bolsonaristas no WhatsApp mostrou que circularam 256 mensagens com textos variados pedindo o impeachment do ministro.

Em uma segunda mensagem, o diagnóstico é similar, mas a retórica populista se alia de forma mais explícita à autoritária. A solução para a suposta crise constitucional passa pela atuação das Forças Armadas e o fechamento do STF:

“Vamos todos às ruas no dia 7 de Setembro, levando faixas c/ o seguinte pedido: “Eu autorizo n/ presidente usar as Forças Armadas do Brasil p/q dentro das 4 linhas afastem os integrantes do STF q hoje rasgam a constituição e agindo de forma ideológica a favor do bandido do PT”.”

Às vésperas das eleições e quando se comemoram os 200 anos da independência do Brasil, as mensagens se reproduzem e se espalham com grande velocidade nas redes bolsonaristas, adaptando-se ao que pede o momento político. A menos de um mês do primeiro turno das eleições presidenciais, a mobilização do 7 de setembro terá muito mais a ver com o processo eleitoral e com as autoridades eleitorais do que com o embate entre candidatos e a apresentação de propostas de governo.

 

*Marisa von Bülow é professora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília.

Bia Calza é mestranda em ciência política da Universidade de Brasília.

Eleições 2022 nas redes sociais: notícias falsas e muito mais

Eleições 2022 nas redes sociais: notícias falsas e muito mais

Marisa von Bülow

Publicado no GGN

Quando se fala sobre redes sociais e eleições no Brasil, um tema sempre mencionado é o do impacto negativo da difusão de notícias falsas. Não é à toa. As eleições presidenciais de 2018 serão para sempre lembradas como o pleito no qual as mentiras dominaram os debates, sendo ampla e rapidamente difundidas via redes sociais. Em 2022, as notícias falsas continuam sendo um desafio importante, mas temos outros desafios que vão além dessa questão e que merecem toda a nossa atenção.

Apesar de as notícias falsas continuarem sendo tema central, há mudanças relevantes em termos da consciência da opinião pública sobre esse fenômeno. Em 2018, dados da pesquisa A Cara da Democracia, produzida pelo Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação, mostraram que apenas 23% dos entrevistados admitiam ter lido, ouvido ou visto notícias falsas sobre política nos seis meses anteriores. A mesma sondagem, realizada em nova rodada da pesquisa em 2022, mostrou que essa porcentagem subiu para 54% dos entrevistados.

Essa mudança deve muito à mobilização da sociedade civil brasileira sobre o tema. Desde antes de 2018, acadêmicos, ONGs, jornalistas e movimentos sociais têm promovido campanhas de checagem de fatos e denunciado sistematicamente notícias falsas. Mas ela também tem a ver com a experiência traumática vivida no país durante a pandemia. Frente a uma verdadeira avalanche de notícias falsas, que iam das teorias da conspiração sobre a origem do vírus à defesa criminosa de remédios cuja eficácia não estava comprovada, houve uma ampla mobilização de internautas. Profissionais da área da saúde, cidadãos comuns e organizações da sociedade civil foram às redes sociais para oferecer conteúdo confiável e de fácil compreensão para uma população que, em contexto de isolamento, passou a depender ainda mais da internet para obter informações. Segundo a pesquisa TIC Domicílios, 81% da população conectou-se à Internet em 2021, um aumento de 7 pontos em relação ao período pré-pandemia.

A ampliação da consciência da opinião pública sobre notícias falsas é positiva, porque, para combatê-las, não basta a atuação das plataformas e nem das autoridades eleitorais. As reações desses atores são, em geral, tardias e parciais. Dependemos dos próprios usuários de redes sociais se quisermos ter qualquer chance de diminuir o impacto negativo das notícias falsas no processo eleitoral. No entanto, ainda precisamos avançar muito. O fato de, em 2022, quase metade dos respondentes da pesquisa não admitirem ter tido contato com notícias falsas sobre política é um dado preocupante e, francamente, estarrecedor.

Para além das notícias falsas, temos outros desafios, que não existiam ou não eram tão claros em 2018. O ecossistema digital está ainda mais fragmentado e, portanto, difícil de monitorar (o que é diferente de censurar, vale sempre a pena esclarecer). Em 2018, a novidade era o WhatsApp. Hoje, temos também o Telegram, o TikTok e outras plataformas. É um universo ainda mais complexo. E o problema é que nós adotamos uma mentalidade de plataforma única, quando o seu uso é multiplataforma. Alguns exemplos dessa dinâmica: prints do tweet de Anitta declarando o voto em Lula foram disseminados em grupos de WhatsApp e no Instagram; vídeos que promovem a violência política ou atacam o sistema eleitoral aparecem primeiro no YouTube, mas são rapidamente compartilhados em grupos de WhatsApp e em canais no Telegram.

Isso nos leva ao segundo desafio que ganha destaque no pleito de 2022: a circulação de discursos de ameaça à democracia nas redes sociais digitais. Em parte, esses discursos são baseados em notícias falsas sobre a confiabilidade do sistema eleitoral, os resultados das pesquisas eleitorais e o funcionamento das urnas eletrônicas. Mas também vão muito além. São discursos que promovem a violência e o ódio, alguns baseados em mentiras e conspirações, outros baseados em ideologias autoritárias.

Todos esses desafios estão no escopo do trabalho do Observatório das Eleições 2022, uma colaboração entre pesquisadores de diversas instituições brasileiras, cujo objetivo é coletar dados e oferecer análises sobre o processo eleitoral. Nas próximas semanas, o Observatório acompanhará de perto o uso das redes sociais digitais pelos principais atores políticos brasileiros. Somamos, assim, os nossos esforços a um conjunto amplo de iniciativas que, na sociedade civil e nas instituições políticas, nas redes e fora delas, estão preocupadas em garantir a integridade do processo eleitoral. Afinal, está em jogo nada mais nada menos do que a nossa democracia.

 

* Professora da UnB e pesquisadora do Observatório das Eleições 2022.