O futuro climático do planeta: o que o projeto autocrático de Bolsonaro tem a ver com isso?

O futuro climático do planeta: o que o projeto autocrático de Bolsonaro tem a ver com isso?

Helena Dolabela Pereira

Publicado no JOTA

 

 

Entramos na última semana que antecede o segundo turno da eleição presidencial de 2022 no Brasil. É preciso recuperar o foco sobre uma das questões atuais mais complexas e urgentes que a humanidade enfrenta: a crise climática. O que o pleito tem a ver com isso?

Noam Choamsky, reconhecido professor de linguística do MIT e ativista político, concedeu uma entrevista há dois dias do primeiro turno para o programa Democracy Now no qual foi perguntado sobre o significado da eleição brasileira. Ele disse: “é muito significativo não apenas para o Brasil mas para todo o mundo. No Brasil, por vários aspectos, mas um deles é o fato de que a maior parte da Região Amazônica está no Brasil. São dois candidatos. Um deles é o presidente em curso, Bolsonaro, que é, basicamente, comprometido com a destruição da Amazônia. (…) É sabido há algum tempo que, cedo ou tarde, se a destruição da Amazônia continuar, não existirão mais nutrientes para a sua reprodução e deixará de ser um sumidouro de carbono e passará a produzir carbono transformando-se em uma savana. Isso é uma catástrofe para o Brasil e, de fato, para todo o mundo”.

A política anti-ambientalista do presidente Bolsonaro ao longo de todo o governo já foi analisada em textos publicados pelo Observatório das Eleições. Uma forma de entender esse direcionamento governamental é utilizando a chave dualista das diferentes concepções de desenvolvimento: de um lado, o crescimento econômico; de outro, o conservacionismo ambientalista. Estas linhas foram borradas pela narrativa do desenvolvimento sustentável aceita pela esquerda e pela direita, mas não resolve os conflitos nos casos concretos já com forte propensão a ceder ao poder dos grupos econômicos. 

No caso do governo Bolsonaro, o pêndulo direcionou-se fortemente para os grupos econômicos que se beneficiam da exploração irrefreada dos recursos naturais, algumas vezes de forma irregular. Contudo, não se trata somente da defesa pelo lado econômico (e lucrativo) do desenvolvimento, mas de uma ideologia populista de extrema direita que têm fundamentado várias políticas e ações nos últimos quatro anos. É assim que a questão climático-ambiental no atual contexto brasileiro precisa ser decifrada para que possamos dimensionar o alcance do resultado das eleições de 2022 no Brasil.

O projeto populista de Jair Bolsonaro é baseado na figura de um líder messiânico que representa diretamente a vontade do povo, rejeita as instituições de mediação (como os partidos e a mídia tradicional) e o arranjo constitucional de freios e contrapesos. Este último aspecto ganhou maior destaque na semana que passou pela declaração do presidente a favor do aumento do número de ministros do STF com vistas a conseguir um alinhamento com o seu projeto de poder. Alguns estudiosos também têm apontado como característica de governos populistas a sua faceta negacionista relacionada ao anti-intelectualismo, a inferiorização do saber científico e a afeição a teorias da conspiração. Os cientistas políticos Leonardo Avritzer, Lucio Rennó e Priscila Delgado , em estudo sobre a o populismo e a pandemia da Covid-19 no Brasil, defendem que a conduta do presidente brasileiro neste período não foi uma ação irracional, mas o posicionamento de um líder populista que escolheu o distanciamento da ciência na medida em que esta se alinhava com o sistema político tradicional.

O negacionismo governamental também afetou a política ambiental por meio, entre outras ações, das constantes críticas às metodologias empregadas para aferir os números sobre queimadas e desmatamentos na Amazônia e outros biomas, publicados por instituições oficiais reconhecidas internacionalmente como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Neste cenário de uma atuação governamental anti-constitucionalista e negacionista, cresceu a importância das instituições de justiça, especialmente a atuação do Judiciário brasileiro para fazer frente aos retrocessos em matéria climático-ambiental. Houve um aumento expressivo da chamada litigância climática nos últimos quatro anos, com a propositura de ações judiciais por parte do Ministério Público, partidos políticos e associações civis – com destaque para a atuação de associações indígenas – em defesa dos direitos socioambientais e climáticos.

A clara inclinação autocrática do governo Bolsonaro mostra o risco de uma sua eventual reeleição. Não se trata, contudo, de um fenômeno local. O mundo todo vive um processo de autocratização, ainda que a natureza deste tenha se alterado, como mostra o volume da Revista V-Dem – The Democracy Report 2022: The Autocratizachion Changing Nature?. Este relatório nos ajuda a justificar, com base em dados científicos, quais são os dividendos da relação entre democracia e mudança climática. Compilando estudos sobre a relação entre governos democráticos e cooperação para o clima, identificou-se que: democracias de alta qualidade têm um compromisso político quase 20% maior com a mitigação das mudanças climáticas do que autocracias fechadas como a China. Também equivale a uma diferença nas metas da política de redução do Acordo de Paris de 1,6%. Isto é, democracias se comprometem objetivamente mais com medidas para a redução da emissão de gases de efeito estufa. E, ainda, aponta-se que um aumento de 1% nas liberdades civis gera uma redução de 0,05% nas emissões nacionais de CO2.

A conclusão é clara: são as democracias que fornecem a arena para sociedade civil defender as questões relacionadas às mudanças climáticas e, assim, poder pressionar internamente os sistemas políticos. Por outro lado, o tratamento de um problema que não respeita fronteiras depende de comportamentos governamentais cooperativos no âmbito das relações exteriores. O Brasil é um ator político fundamental e fiel da balança na discussão sobre o clima. A sua posição geopolítica em relação às mudanças climáticas é de interesse de todo o planeta. As expectativas mundo afora em relação ao resultado das eleições são opostas. 

Se Bolsonaro ganhar, a capacidade de construção de consensos e compromissos em torno de uma pauta climático-ambiental avançada será fortemente prejudicada, colocando em xeque qualquer esforço diplomático global. O Brasil continuará sendo um pária internacional nos organismos multilaterais. Por outro lado, a vitória de Lula é vista como uma retomada mais do que urgente das negociações diplomáticas na questão climática, já prenunciada durante a campanha eleitoral pelo encontro do candidato com parlamentares da União Européia para a construção de um diálogo e o compartilhamento de um termo de cooperação envolvendo a proteção da floresta amazônica.  

A nós, eleitoras e eleitores do Brasil, no dia 30 de outubro, será dado o direito de decidir o futuro da presente e das próximas gerações, não apenas do Brasil, mas de todo o planeta.

 Helena Dolabela é pesquisadora de pos-doutorado no INCT IDDC. Doutora em Antropologia e mestre em Ciência Politica pela UFMG. Pesquisa temas como conflitos socioambientais e litigância climática.

O que está em jogo: religião, valores e política

O que está em jogo: religião, valores e política

No esforço de manter a dianteira após o primeiro turno, a campanha de Lula mudou a estratégia com relação a um dos pontos sensíveis da eleição: a relação entre valores, religião e política. O Observatório das Eleições tem acompanhado postagens de atores ligados às duas campanhas nas redes sociais, onde essa mudança é bastante clara. 

 

Até o início de outubro, postagens no Twitter relacionadas ao tema da religião representavam 18% do total de publicações dos perfis bolsonaristas acompanhados. Entre os atores do campo lulista, não passavam de 10%. No período de 3 a 20 de outubro, no entanto, essa porcentagem sobe para 20%, superando a do campo bolsonarista. No YouTube vemos dados similares: a comparação entre os temas dos vídeos publicados no primeiro e no segundo turno mostra que religião foi o tema que mais cresceu entre atores do campo lulista.

 

A mudança da estratégia petista vai além de simplesmente falar mais sobre o tema, no entanto. A ampliação das menções à religião pode ser entendida a partir de dois movimentos distintos. Primeiro, a contraofensiva, desencadeada em boa medida por fora dos perfis oficiais da campanha, que associa Bolsonaro à maçonaria, à intolerância religiosa e até ao satanismo, virando assim a mesa da narrativa bolsonarista. Em paralelo, há também um movimento de aproximação a setores religiosos, em especial evangélicos, cujo maior símbolo é uma carta divulgada no dia 19 de outubro. 

Logo no início do segundo turno, vídeos sobre Bolsonaro e a maçonaria repercutiram tanto entre apoiadores de Lula, como entre atores do outro campo. O episódio foi um raro momento da campanha em que o campo progressista obrigou o adversário a defender-se sobre um tema que envolvia religião. E foi o primeiro de vários que se sucederam.

 

A partir da semana do 12 de outubro, vídeos feitos por apoiadores de Lula circularam amplamente, mostrando fiéis bolsonaristas indignados, interrompendo, aos gritos, missas do dia de Nossa Senhora Aparecida, hostilizando outros fiéis ou questionando homilias. Um desses vídeos mostra, por exemplo, a reação à menção a Marielle Franco  por um padre. Aos berros, duas mulheres interrompem a missa para dizer que o padre não poderia mencionar o nome de uma homossexual. Também bradam notícias falsas sobre Marielle, já fartamente desmentidas. Uma internauta comentou “mais uma apoiadora de Bolsonaro interrompendo uma missa e hostilizando o padre. Eles querem destruir a Igreja Católica”. É o feitiço voltando-se contra o feiticeiro, porque até então a única narrativa anti-Igreja era uma narrativa anti-Lula. 

 

Um olhar detalhado para o conteúdo das mensagens ratifica a mudança. Algumas das que foram mais reencaminhadas antes do primeiro turno tendiam a questionar a aproximação entre evangélicos e Bolsonaro, com textos como: “saudade quando os evangélicos queriam que a gente aceitasse Jesus e não o Bolsonaro”. No segundo turno, as mais retuitadas no campo de atores acompanhado pelo Observatório das Eleições são de ataque e de construção de contra-narrativas: “EITA! Vídeo de Bolsonaro na maçonaria vem à tona. A sociedade discreta tem como membros Carla Zambelli, Jorginho Mello (…)”. E, ainda: “se Lula ganhar, Igrejas NÃO serão fechadas. Se Bolsonaro continuar, Universidades SERÃO fechadas.”

 

Neste segundo movimento, pela primeira vez nesta campanha, viu-se o campo lulista demonstrar sua força no campo das discussões morais, ou religiosas.

Além disso – e esse é um aspecto que foi menos comentado -, ficou visível a existência de divisões ideológicas também entre os católicos. Há tempos sabemos que evangélicos, católicos e outros grupos religiosos são internamente heterogêneos e que também têm muitas divergências entre si. Isso, porém, vinha passando ao largo dos debates eleitorais de 2022. Texto de cientistas políticos publicado recentemente no Nexo apontava para isso ao discutir possibilidades de diálogo da campanha petista com evangélicos. Desde a fundação do PT, também se sabe que o partido tem raízes nos setores progressistas da Igreja Católica. 

 

Menos do que uma contraposição entre uma ou outra religião, é o conjunto de valores no interior de cada uma delas que está em disputa. E o PT, para se manter na liderança, precisa superar a percepção construída durante a campanha de que pode ser ameaça aos valores conservadores. Daí o segundo movimento.

 

A divulgação da “Carta Pública ao Povo Evangélico” em 19 de outubro abre mais um capítulo dos esforços petistas para angariar apoios entre cristãos, ou pelo menos neutralizar o discurso bolsonarista. No primeiro turno já houve, como se sabe, aproximação com lideranças evangélicas e a preparação de materiais de campanha voltados especificamente a este público. Até ali, a principal tendência era disputar interpretações de textos bíblicos – a disputa entre armas e amor, autodefesa e o valor da vida, por exemplo.

 

Comparada com alguns desses materiais, nos quais a questão dos direitos e do papel do Estado para garantir direitos era o tom central, a nova carta faz um movimento mais intenso de aproximação das pautas conservadoras. Primeiro, reafirma o compromisso com a liberdade de culto e de religião, depois posiciona-se diretamente sobre questões de valores com ênfase nas famílias e jovens. Menciona políticas públicas apenas na parte final do texto, e também ali a ênfase é no lar: a casa para a família, com referência ao programa Minha Casa Minha Vida.

Desloca-se o foco da atuação do Estado na proteção das populações mais vulneráveis para a  possibilidade de cada pessoa – ou família – “adquirir necessários e suficientes meios para viver dignamente por seu trabalho, sem ter que depender da ajuda do Estado”. Há aí uma visível mudança de tom.

 

Detectar esses movimentos, porém, não significa dizer que terão impactos nas urnas. Aliás, essa segunda virada pode complicar a vida dos petistas com seus apoiadores de primeira hora, em caso de eleição, mas a campanha parece confiar que a ampliação do espaço para outras pautas não vai minar a adesão de seus apoiadores mais estáveis.

 

Do outro lado, a campanha bolsonarista precisou pela primeira vez atuar reativamente no campo dos valores, sem deixar de apostar suas fichas na mobilização da pauta conservadora. A questão, agora, é qual dos dois conjuntos vai convencer os poucos indecisos e os muitos ausentes a tomar partido. 

Marisa von Bülow é professora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília e doutora em ciência política pela Universidade Johns Hopkins (EUA). Suas publicações tratam do tema do ativismo digital, das estratégias digitais eleitorais e das relações entre sociedade e Estado. 

 

Priscila Delgado de Carvalho é pós-doutoranda no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (Inova Juntos) e pesquisadora do INCT-IDDC (Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação). Investiga a atuação de atores coletivos em processos democráticos, com ênfase na transnacionalização de movimentos sociais e sindicatos rurais e percepções de cidadãos sobre autoritarismo e democracia. Doutora em ciência política pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

A disputa pelos espólios da base governista no Ceará

A disputa pelos espólios da base governista no Ceará

Monalisa Torres, Nathanael Rodrigues, Davi Sousa e Lilian Cavalcante*

 

Foi dada a largada para a corrida ao Palácio da Abolição no Ceará. E após as definições dos partidos, temos os seguintes nomes disputando o cargo de governador e vice, respectivamente: Capitão Wagner (UB) e Raimundo Gomes de Matos (PL); Roberto Cláudio (PDT) e Domingos Filho (PSD); Elmano de Freitas (PT) e Jade Romero (MDB); Zé Batista (PSTU) e Reginaldo Araújo (PSTU); Chico Malta (PCB) e Nauri Araújo (PCB); Serley Leal (UP) e Bita Tapeba (UP). Dessas, as três primeiras candidaturas mostram-se mais competitivas pelo tamanho das coalizões que conseguiram montar e pelos apoios que têm agregado capital político aos seus postulantes. 

Aliado do presidente Bolsonaro (PL), Capitão Wagner consolidou-se como o principal nome da oposição no estado do Ceará. Com forte base eleitoral na capital, lidera as pesquisas de intenção de votos e conta com apoio de seis partidos (União Brasil, PL, Avante, Republicanos, PTB, PODEMOS), que em número de prefeituras soma 16 municípios.

Partidário de Ciro Gomes, Roberto Cláudio (PDT), foi prefeito de Fortaleza e conta também com o apoio de Tasso Jereissati (PSDB). Seu candidato a vice, Domingos Filho, é líder do PSD no Ceará, segundo partido em número de prefeituras. Sua coligação reúne nove siglas (PDT, PSD, PSB, PSC, Patriota, PMN, Agir, DC e PMB), que, somadas, administram 95 prefeituras. 

Por sua vez, Elmano de Freitas (PT), cujo palanque contará com as presenças de Lula e do ex-governador Camilo Santana, compôs uma aliança com nove partidos (PT, MDB, PV, PSOL, PCdoB, PP, Solidariedade, REDE, PRTB), que somados chegam a 61 prefeituras.

 

Os primeiros dias de campanha 

Os primeiros dias de campanha já ofereceram importantes indicativos das estratégias a serem adotadas pelos candidatos ao executivo estadual cearense: a presença forte na capital, Fortaleza, demonstrando a necessidade de ganhar terreno no maior colégio eleitoral do estado, mas também a busca por apoios dos prefeitos dos municípios do interior. 

Observadores das eleições concordam que para um candidato ao governo manter-se competitivo, precisa atingir, no mínimo, 1/3 das intenções de votos na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF) para garantir apoio dos prefeitos do interior. Do contrário, corre-se o risco de ver sua base política esvaziar-se. 

Aqui cabe uma lembrança: na história recente do Ceará, as eleições majoritárias mais competitivas foram resolvidas conquistando-se os votos das bases eleitorais do interior. Foi assim que, em 2002, Lúcio Alcântara (PSDB) foi eleito governador em segundo turno. Ou em 2014, quando de virada Camilo Santana (PT) conquista seu primeiro mandato para o executivo cearense. Ou ainda, em 2018, quando Eunício Oliveira (MDB) não é reeleito ao senado em virtude de ter perdido parte de sua base eleitoral no interior.

Outra especificidade das eleições cearenses tem sido a vitória de oposições que derivam de rachas nas bases governistas. Para ficar num exemplo mais recente, citamos o caso de Cid Gomes (PSB) em 2006. Na época, Cid deixou a base do governo Lúcio Alcântara (PSDB), que tentou reeleição, para se colocar como alternativa ao ex-aliado. Com apoio informal de Tasso Jereissati (PSDB), Cid Gomes foi eleito governador ainda no primeiro turno das eleições, vencendo em 164 dos 184 municípios cearenses.

As eleições de 2022 parecem repetir os padrões assinalados acima: 1) a atenção dos candidatos para a contrução de rede de apoio nos municípios do interior e 2) candidaturas fortes que nascem da fragmentação da base governista. Ainda que estejamos no início das campanhas eleitorais, esses dois elementos combinados a um fato inédito na política cearense (a declaração de neutralidade da governadora Izolda Cela, atualmente sem partido), têm produzido um cenário de acirramento e incertezas quanto aos nomes que seguirão para o segundo turno na corrida pelo Palácio da Abolição. 

O racha da base governista e o reposicionamento das bases eleitorais

No momento da escrita desse artigo, dos 184 prefeitos cearenses, oito afirmaram comprometer-se com o candidato Capitão Wagner. Outros 73 oficializaram apoio a Roberto Cláudio e cem prefeitos declararam-se apoiadores de Elmano de Freitas. Apenas quatro prefeitos ainda não oficializaram apoio a nenhum dos postulantes ao governo, dentre eles o prefeito de Sobral, Ivo Gomes (PDT). Outro dado que chama atenção é que 21 prefeitos de siglas que compõem a base de Roberto Cláudio apoiam a candidatura de Elmano e uma prefeita mudou de legenda (do PSD para o MDB) para declarar apoio ao candidato petista. Essas “infidelidades” também ocorrem do lado de Wagner, que viu cinco prefeitos de partidos coligados apoiarem adversários e outros três que ainda não declararam seu apoio (Figura 1).

Figura 1 – Mapa de apoio – eleições 2022 no Ceará

Fonte: elaboração própria.

 

Obviamente esses números poderão mudar até a reta final das campanhas eleitorais, sobretudo após o início do horário eleitoral gratuito no rádio e TV. No entanto, cabe fazer um destaque para a fragmentação da base governista após o racha entre PDT e PT (ver em artigo link ) e do papel que lideranças como Domingos Filho (PSD), de um lado, e Eunício Oliveira (MDB) e Camilo Santana (PT), de outro, têm exercido na costura da base política junto aos prefeitos cearenses.

 O que as pesquisas indicam?

Nos dois últimos levantamentos de intenção de votos, Wagner permanece na liderança e Roberto Cláudio e Elmano de Freitas aparecem empatados tecnicamente. 

Segundo a pesquisa Real Time Big Data, divulgada em 22 de agosto, Wagner apresenta crescimento, de 35% para 38% das intenções de votos. Roberto Cláudio perde 5%, marcando 23% no último levantamento. Elmano sobe de 20% para 24%. Brancos e nulos somaram 7%. Não souberam ou não responderam, 5%. 

Na pesquisa IPESPE/O Povo, de 25 de agosto, Wagner oscilou um ponto para baixo, de 38% para 37% das intenções de voto. Roberto Cláudio também oscilou negativamente dentro da margem de erro, aparecendo com 28% no primeiro levantamento e 25% no segundo.  Elmano foi o único que apresentou evolução, empatando tecnicamente com o ex-aliado, subindo de 13% para 20% das intenções de votos. Brancos e nulos somaram 10%. Não souberam ou não responderam, 7%.

Até o momento, na disputa pelos espólios da base governista, Camilo Santana parece ter logrado os melhores resultados. É o que indica o mapa de apoio e o crescimento de Elmano nas pesquisas de intenção de votos, sobretudo entre os respondentes do interior do estado. Sem o trabalho de composição do habilidoso senador Cid Gomes (PDT), Roberto Cláudio precisará demonstrar a mesma habilidade que mobilizou na campanha vitoriosa de Sarto Nogueira (PDT) à prefeitura de Fortaleza em 2020.

A eleição de 2022, de partida, já se mostra bastante competitiva. O resultado poderá selar o destino do grupo político dos Ferreira Gomes no Ceará. 

 

*Monalisa Torres é professora de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará. Doutora em Sociologia pela UFC. Pesquisadora vinculada ao Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (LEPEM-UFC).

Nathanael Rodrigues é aluno de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará. Bolsista IC/UECE vinculado ao projeto “Pactos na cena política cearense: dinâmica de funcionamento de grupos políticos no contexto de transição de ciclos políticos no Ceará”

Davi Sousa é aluno de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará. Bolsista ICT/Funcap vinculado ao projeto “Pactos na cena política cearense: dinâmica de funcionamento de grupos políticos no contexto de transição de ciclos políticos no Ceará”

Lilian Cavalcante é aluna de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará. Pesquisadora voluntária vinculada ao projeto “Pactos na cena política cearense: dinâmica de funcionamento de grupos políticos no contexto de transição de ciclos políticos no Ceará”